Falabella quer levar "o povão" ao teatro

O ator e autor Miguel Falabella querlevar o povão ao teatro, com ingressos baratos e espetáculospara todos os gostos e níveis culturais. Esse desejo o feztornar-se gestor dos dez teatros e seis lonas culturaisadministrados pela Prefeitura do Rio. A nomeação dividiu osprofissionais da área. Parte aprovou um nome de sucessoincontestável e parte teme que o experimentalismo, com apoiooficial, seja preterido em favor de espetáculos comerciais. Apósuma semana de reuniões a situação começa a se apaziguar.Falabella reestreou hoje, em temporada popular, noTeatro João Caetano, o musical South American Way e ensaiaBatalha de Arroz, num Ringue para Dois, sucesso dos anos 80,ao lado de Cláudia Gimenez, para estrear em fevereiro. Nointervalo entre os ensaios, discorreu sobre esse primeiro cargopúblico que ocupa em 20 anos de carreira.O que o levou a aceitar o convite daprefeitura?Miguel Falabella - Quero levar o povão ao teatro,torná-lo uma arte plural, que abrigue todo tipo de espetáculo.Há uma população carente, que não tem dinheiro para ir aosteatros privados e, quando pode pagar os R$ 5 do ingresso dasala pública, encontra espetáculos que não os interessa. Nãoquero mudar nada nem mexer com pessoas. Há espaço para todos,mas todo mundo vai ter de ralar. O teatro confere cidadania àspessoas. Quem se senta numa sala para ver uma peça se sente maisgente. E o teatro está na minha vida desde cedo. Fui criado nazona norte e o presente de aniversário de minha infância era omeu pai encher a Kombi e levar todo mundo para a PraçaTiradentes, onde assisti Bibi Ferreira, em Hello Dolly, etodos os outros clássicos. Isso fez de mim a pessoa que souhoje.No entanto, seu nome provocou reação da classeteatral...Da classe não... de algumas pessoas. Cadêgente representativa como o Nanini, a Marieta Severo? Essasoutras pessoas que protestam são ligadas à RioArte (órgãomunicipal encarregado da execução da política cultural) eesquecem da minha história. Sou um homem de teatro. Vivo dissodesde a adolescência. Já fiz parte de grupos, mas depois minhavida se encaminhou diferente e hoje sou exceção por conseguirfazer teatro sem apoio oficial. Não porque não quero, mas porquenem sempre consigo. Eles têm medo que eu coloque só o teatromainstream na rede pública, mas o próprio Amir Haddad (queatualmente administra o Teatro Carlos Gomes, da prefeitura)definiu a situação. Ele disse que há o alto mainstream e o baixomainstream, assim como o baixo e o alto experimentalismo. Teatrotem é de ser bom e bem-feito, sem esses rótulos, porque é sempreuma incógnita.Você tem um plano para os teatros e lonasculturais?Vamos rediscutir sua ocupação, mas nãotrabalharei sozinho. Nunca fui centralizador e por isso minhascoisas sempre deram certo. Sei da dificuldade de se fazer teatroe creio não ter inimigos entre os profissionais cariocas. Quero,por exemplo, aproveitar melhor o Teatro Carlos Gomes (no centro), para musicais e espetáculos brasileiros; entregar aquele espaçomaravilhoso ao público que está ali em volta. Quero também levaro teatro para a zona norte e subúrbio. Por que o pessoal daslonas culturais não tem direito de ver bom teatro? Pensardiferente é preconceito.Você já pensou em nomes?Eu tinha chamado a Cláudia Gimenez, mas elase negou. Não quer se meter nessa muvuca. Não conheço quem fazteatro experimental, mas o Moacir Chaves (que ocupa o Teatro doPlanetário) é competentíssimo e pode me ajudar. Eu o convidei eacho que ele aceitou. Meu papo foi este: pensamos diferente, massomos homens de teatro, vivemos disso (Moacir Chaves confirmou adisposição de colaborar e que tudo se acerta numa reunião nasemana que vem). Minha intenção é dar espaço para todo mundotrabalhar porque gente é para brilhar. Não vim brigar. Isso ficapara Estados Unidos e Iraque.

Agencia Estado,

16 de janeiro de 2003 | 17h37

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.