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Fala, Adélia

‘Não reconhecem meu lugar de fala. O meu lugar de bicada eles respeitam’, diz a ema do Alvorada

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 03h00

Quinta-feira fez quatro meses que procurei em vão conhecer e, se possível, entrevistar aquele sumido haitiano que em 16 de março jogou na cara de Bolsonaro que ele não era mais presidente. Prometi a mim mesmo que o próximo a desacatar o, vá lá, presidente não me escaparia. 

No início da semana o haitiano ganhou um companheiro de desacato. A bem dizer, uma companheira: a ema do Alvorada. E eu me esforcei para não deixá-la escapar. 

Na tarde da última segunda-feira, enquanto zanzava à toa em sua quarentena, Bolsonaro cismou de alimentar as emas do Alvorada. Quando menos esperava, levou uma bicada. Foi o que bastou para a emplumada agressora virar heroína nacional, ser alçada à categoria de “animal antifascista”, ganhar bordão feminista (“Lute como uma ema”) e até esta singela trova: “Ema, ema, ema/Bolsonaro é o problema”.

Como ainda circulava no noticiário uma naja que se defendera de seu captor com uma picada certeira, tanto a ema como a cobra acabaram aclamadas como líderes de uma nova “revolução dos bichos”, desta feita só com vilões humanos; no caso, o traficante de animais picado e o presidente bicado. 

As emas são aves invocadas. Sua braveza talvez seja fruto da frustração de não voar, só correr. E como correm! Com passadas de 4 m a 5 m, podem, sem esforço, cobrir 70 km em 30 minutos. Onívoras, não dão mole para insetos, cobras, escorpiões e pequenos roedores. 

Sempre houve pelo menos meia dúzia de emas no Alvorada. Lula sabia lidar com elas; alimentava-as, nunca o bicaram. D. Lucy, mulher do general Geisel, tinha uma cadela dálmata, chamada Duquesa, que era frequentemente molestada pelas emas, o que levou a primeira-dama a despachá-las para o zoológico da capital. Quando apareceu uma cascavel na varanda do palácio, as emas voltaram para o Alvorada e Duquesa foi para a Granja do Torto. 

A ema que bicou o presidente, mas teve a sorte de não pegar o vírus que ele tanto se empenha em promover e propagar, ganhou o inevitável apelido de “Adélia”. Seu nome científico, Rhea, tem origem grega. A Rhea da mitologia era uma titânide, filha de Urano e Gaia. 

Antes de acertar com ela uma entrevista, pratiquei o que aprendi com o dr. Dolittle, o mais célebre interlocutor de animais depois do rei Salomão, busquei eventuais dicas com Rikki-Tikki-Tavi, o mangusto falante de Rudyard Kipling, e com a gralha Tschok de Konrad Lorenz. 

Por força das circunstâncias, nossa conversa foi feita por e-mail. E a primeira pergunta não podia ser outra: Por que você atacou o presidente?

Adélia - Eu não ataquei, me defendi. Nós e todas as aves reiformes só nos defendemos. 

Mas ele só queria lhe dar comida.

Adélia - Isso foi o que a Secretaria de Comunicação da Presidência divulgou. Mesmo que fosse verdade, não confio nele, estou sempre com a pata atrás. Na dúvida, dei-lhe uma bicada. In dubio pro Rhea

Por que você não tentou dar sua versão do incidente?

Adélia - Como, se eles não me entendem? Não reconhecem o meu lugar de fala. O meu lugar de bicada eles respeitam.

Vocês eram mais respeitadas pelos holandeses que invadiram o Brasil no século 17.

Adélia - Sem dúvida. Não é do meu tempo, mas sei que no Rio Grande do Norte até havia uma ema no brasão holandês. 

Vocês têm muito prestígio no Nordeste. O gogó da ema ficava numa praia de Maceió. Jackson do Pandeiro, que era paraibano, compôs uma música em homenagem a vocês.

Adélia - O Canto da Ema. (Cantarolando) “A ema gemeu, no tronco do Juremá...” Eu acho linda.

E aquela história de que o canto da ema dá azar?

Adélia - Intriga da oposição.

Mas é o que diz a letra do Jackson do Pandeiro.

Adélia - Fake lyrics.

De qualquer modo, o prestígio de vocês no Nordeste é bem maior. No Sul, Gogó da Ema é marca de cachaça e nome de favela no Rio. 

Adélia - Da Bahia pra baixo é terra de tucano. Emas, no Sul e Sudeste, só em jardim zoológico.

Mas existem emas em regiões campestres e cerrados do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. Até na Bolívia, ouvi dizer. 

Adélia - Sim. Se não houvesse, já estaríamos extintas, pois só na América do Sul existem emas.

Na África também.

Adélia - Não. Na África só tem avestruz.

Pouca gente sabe disso. Passei boa parte da vida confundindo vocês com avestruzes e vice-versa. Os que aparecem no filme Hatari! são avestruzes, certo? 

Adélia - Eles são de outra família. Mais altos. Têm apenas dois dedos, nós temos três. Têm rabo e penas mais macias do que as nossas, que já estiveram mais na moda. 

Você daria outra bicada no presidente?

Adélia - Com o maior prazer. Se estivesse ao meu alcance, eu botaria ele pra correr até o fim do cerrado. 

E dos ministros, em qual você mais gostaria de dar umas bicadas?

Adélia - Tenho gana naqueles três delinquentes numerados que nem programa de computador, 01, 02, 03. 

Os filhos do presidente.

Adélia - Esses mesmo. Não posso ver o Araújo (Ernesto Araújo, chanceler), que logo quero partir pra cima dele. Com o Salles (Ricardo, do Meio Ambiente) e o Guedes (Paulo, da Economia), a mesma coisa. Mas se for obrigado a escolher apenas um pro meu bico, escolheria aquela ministra de mente suja... isso: a Damares. 

Nenhum ministro militar?

Adélia - Todos. Da ativa e da reserva. Sei que não daria conta deles, pois são muitos. Nem durante a ditadura havia tantos milicos no Alvorada e no Planalto. Aquilo virou um quartel.

Você acha exagero ou absurdo falar em genocídio, a propósito da forma como o governo vem lidando com a pandemia?

Adélia - Exagero nenhum. Exagero são os quase 80 mil mortos.

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