Fajardo parte do mármore para discutir oposições

Carlos Fajardo é um daqueles artistas que conseguem aliar a busca permanente por novas experiências com uma fidelidade impressionante às questões centrais ligadas a sua obra. As quatro peças que expõe a partir de amanhã à noite na Galeria Millan remetem de forma sutil a diferentes momentos de seu trabalho.Como se fizessem parte de uma mesma família, mas mantendo suas características particulares, esses trabalhos retomam investigações sobre a relação entre superfície e profundidade, o uso da luz como elemento constitutivo da obra ou a relação ambígua entre a pintura e a escultura. "É como se fossem vários personagens que aparecem em meu trabalho e vão se transformando", afirma ele. Incansável pesquisador, ele vem descobrindo ultimamente a riqueza da fotografia, linguagem que também incorpora na exposição.Apesar de estar profundamente ligado à linguagem escultórica, Fajardo não se considera um escultor. "Meu trabalho tem uma tridimensionalidade que vem da bidimensionalidade, ele trata da materialidade da superfície que advém da pintura", explica ele, lembrando que sua obra sempre parece estar se escorando em alguma coisa, como se não pudessem existir sem estabelecer uma relação de dependência com o chão ou a parede.Oposição - Outro aspecto vital dessas obras é a permanente contraposição entre elementos distintos como o mineral e o orgânico, o feminino e o masculino. Realizados numa só empreitada, os trabalhos partiram de uma base única, uma chapa de mármore de 1,90 m de comprimento por 1,40 m de largura, que é confrontada com diferentes materiais de caráter simbólico.O primeiro trabalho com o qual o visitante se depara, ainda fora da galeria (e talvez seja esse um dos melhores ângulos para vê-lo), é também o mais harmônico deles. Trata-se de uma chapa de mármore com um furo no meio, atravessado por uma terra composta de óxido de ferro em estado bruto (cuja cor contrasta e dá mais intensidade ao branco do mármore). Com o olhar no nível do chão, o visitante nota que os pés de cobre que garantem a sustentação da peça são a forma invertida da pirâmide formada pela terra.Essa obra talvez seja a peça mais pictórica da exposição com aquela que contrapõe planos de mármore, granito e folhas de ouro. Nos outros dois trabalhos a experimentação é mais radical, no que se refere aos materiais e às técnicas utilizadas. Como não tem nenhuma relação com o discurso narrativo, Fajardo não dá títulos a seus trabalhos. Se isso dificulta sua identificação, acaba reforçando a importância das escolhas de material feitas pelo artista. A peça apelidada de "pó-de-arroz", por exemplo, é a que mais remete à oposição entre masculino e feminino que Fajardo buscou explorar na exposição. Trata-se de uma simples chapa de mármore italiano (que apresenta uma riqueza de desenhos muito superior às outras utilizadas na mostra) com um orifício pintado de pó-de-arroz e que é precariamente sustentada por uma grande quantidade de cetim. Estabelecendo uma relação entre o desenho da pedra e o pregueado do tecido, Fajardo também faz uma clara citação ao desenho e reafirma a natureza bidimensional de sua obra. Afinal, ele pode estar fazendo escultura, mas acaba tratando as pesadas chapas de mármore como se fossem enormes folhas de papel.Com 34 anos de carreira, ele diz considerar essa mostra uma de suas mais bem-sucedidas iniciativas, já que conseguiu nessa empreitada chegar mais perto possível de sua intenção original. Fajardo foi professor de várias gerações e seu nome acabou por transformar-se praticamente num label de qualidade de arte contemporânea nacional, constando do currículo de jovens artistas que ingressam no mercado. Orgulhoso de ter dado aula para tanta gente, Fajardo rejeita o termo ensinar. "Graças a Deus estou envolvido na idéia de aprendizado, não de ensino", diz ele. "Você pode ter várias pessoas que estudaram comigo, mas não existe um seguidor meu", explica.Carlos Fajardo - De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 14 horas. Galeria Millan. Rua Mourato Coelho, 94, tel. 852-5722. Até 29/6.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.