Fagulhas de Dylan

Cantor divulga vídeo de canção nova, Duquesne Whistle, que se junta a outras duas do novíssimo álbum, Tempest

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2012 | 03h09

O video da canção Duquesne Whistle saiu ontem e foi considerado "tarantiniano" pelo jornal The Guardian. Talvez fosse melhor "chapliniano", com uma dose a mais de violência. No filme, um garoto sem lenço nem documento tenta flertar com uma moça bonita que vê passando nas ruas de (aparentemente) Los Angeles e enfrenta o preço de sua ousadia - além do desprezo da garota. No meio de toda a cena, Bob Dylan desfila com uma trupe circense: um lutador de gangue de rua, um sujeito maquiado com uma máscara do Kiss, um garoto, um careca, uma mina de peruca loira.

Duquesne Whistle é a primeira música oficial de Tempest, o 35.º álbum de estúdio de Bob Dylan, 71 anos, e chega às lojas no dia 11. Foi produzido por Jack Frost (que é um codinome do próprio Dylan) e é o primeiro desde Together Through Life, de 2009.

O videoclipe foi dirigido por Nash Edgerton (que dirigiu antes Beyond Here Lies Nothin' , também de Dylan). Folk-blues nostálgico, a música nova parece remeter a um exame de fora da própria condição de mito - como Leonard Cohen fez em Going Home, canção de seu último álbum. A guitarra que faz contraponto à voz cada vez mais enfumaçada de Dylan é a de Mark Knopfler, do Dire Straits.

Duquesne Whistle, ou "o apito do Duquesne", remete ao nome de um trem de passageiros da Pensilvânia (a canção tem de fato um balanço ferroviário), e a referência à localidade Carbondale (Illinois) molda uma trajetória pela memória do Meio Oeste americano.

Dylan fala pouco, mas deixou anotado que seu novo disco tem o nome de Tempest porque faz referência ao Titanic, e que vai incluir uma participação de Leonardo DiCaprio, que estrelou o épico hollywoodiano.

"Ouça o apito do Duquesne soprando/ Soprando como se carregasse meu mundo para longe/ Vou dar uma parada em Carbondale e seguir em frente/ O trem Duquesne me carregando noite e dia/ Você diz que sou um jogador/ Você diz que sou um cafetão/ Mas não sou nem uma coisa nem outra", canta o velho bardo.

Em tese, essa é a terceira música inédita de Dylan, feita para o novo álbum, que é divulgada ou "vazada". As duas outras são Early Roman Kings e Scarlet Town, da trilha da segunda temporada da série militarista Strike Back, da Cinemax.

A primeira delas, Early Roman Kings, mais acústica, movida a gaita e violão, tem um balanço de blues country clássico, e lembra um pouco Hoochie Coochie Man: "Brigões e ladrões/ Usando anéis de ouro exorbitantes/ Todas as mulheres endoidando/ Pelos antigos soberanos de Roma".

Já Scarlet Town é uma balada dark, apocalíptica, ao velho estilo das canções de protesto do velho Dylan. Pela amostragem, dá para ver que Dylan trilha um caminho que o reaproxima do universo musical e lírico de Love and Theft (2001), uma coisa mais roots e mais estradeira.

O álbum terá dez músicas, na seguinte ordem: 1. Duquesne Whistle; 2. Soon After Midnight; 3. Narrow Way; 4. Long and Wasted Years; 5. Pay in Blood ; 6. Scarlet Town; 7. Early Roman Kings; 8. Tin Angel; 9. Tempest; 10. Roll on John.

Dylan esteve em abril no Brasil, em turnê nacional. Saiu incógnito do hotel para uma caminhada em Copacabana e, em seus shows, não deu pinta de que esteja a ponto de fazer um balanço derradeiro da carreira. Pelo contrário: está de olho na próxima encruzilhada.

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