Marcos Arcoverde/AE
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Fado Tropical

O cantor português António Zambujo mostra as canções de seu novo álbum, Guia, em que reforça os laços com a música brasileira

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

António Zambujo atravessou o oceano algumas vezes, guiado pela música da terra descoberta por Cabral. Numa das últimas viagens, desembarcou em praias brasileiras para firmar parcerias com novos compositores, que registrou no quarto álbum, Guia (MP,B/Universal). Encerrando um pequeno giro por terras brasileiras, o cantor português volta a São Paulo para show único amanhã, no Bourbon Street Music Club, depois de ter se apresentado no Recife e no Rio, na semana passada.

Zambujo, já há algum tempo, juntou-se à seleta galeria de cantores portugueses que dialogam com a música brasileira "de forma orgânica", como definiu Caetano Veloso, um de seus muitos entusiastas por aqui. Desde o encontro de Amália Rodrigues com Vinicius de Moraes, seguiram-se cantores e grupos como Eugénia Melo e Castro, Clã, Teresa Salgueiro, Maria João Quadros, Sérgio Godinho, Trinadus e o poeta Tiago Torres da Silva, entre outros, fadistas ou não, nessa produtiva troca de impressões.

No álbum anterior, Outro Sentido, Zambujo já tinha gravado clássicos de Vinicius de Moraes e Antônio Maria (Quando Tu Passas Por Mim), J.Cascata e Leonel Azevedo (Lábios Que Beijei), Ivan Lins e Vitor Martins (Bilhete). Desta vez ele retorna a Vinicius e parceiros (Poema dos Olhos da Amada e Apelo) e a outra canção seresteira (A Deusa da Minha Rua, de Jorge Faraj e Newton Teixeira), mas também traz novidades tropicais de Rodrigo Maranhão (Quase Um Fado e De Mares e Marias), e da dupla Pierre Aderne e Márcio Faraco, o pungente fado Guia, que abre e dá título ao CD. Pedro Luís e Ricardo Cruz comparecem de novo em seu expediente com Fado da Vida Bela.

Ligação natural. "No disco anterior gravamos compositores brasileiros, mas não tivemos contato com eles. Eram músicas mais antigas. Desta vez o encontro foi direto e pessoal com novos autores, houve uma empatia de parte a parte. Isso se deu um pouco graças ao disco anterior, e pelo fato de termos vindo apresentá-lo no Brasil", diz Zambujo, por telefone, do Rio. "A música brasileira sempre foi uma grande influência para mim, por causa dos intérpretes, especialmente João Gilberto, mas os autores também, como Caetano Veloso, Chico Buarque. Por tudo isso, acaba sendo uma ligação muito natural, porque é a música com a qual eu mais me identifico."

Os especialistas em fado, no entanto, são céticos em relação à atuação de brasileiros nessa área. Maria João Quadros, por exemplo, diz que o fado é um "estado d"alma" que nem todos alcançam, nem mesmo os cantores que interpretam o gênero, mas não são fadistas.

"Fado é uma música muito pessoal, cada intérprete dá a sua leitura, mas Rodrigo Maranhão fez uma música chamada Quase Um Fado, que para mim soa a fado, e é muito inspirado no fado tradicional, do Norte", exemplifica Zambujo. "Acredito que não exista essa incapacidade dos brasileiros, desde que se tenha um conhecimento do que é essa música."

Em contrapartida, Apelo pode soar estranha aos compatriotas de Vinicius e Baden Powell, já que a melodia original foi substituída pela do Fado Perseguição (Carlos da Maia/Avelino de Souza). "Tem uma história engraçada. Os fados tradicionais obedecem uma métrica, têm uma estrutura poética, que podem ser quadras, quintilhas, sextilhas ou decassílabos. Quando li o poema de Vinicius percebi que eram quatro sextilhas, que dava para cantar perfeitamente num fado tradicional", conta o cantor. " Experimentei com Fado Perseguição, que tem várias letras - no fado tradicional a letra é independente da melodia - e gostei. Pedi autorização aos herdeiros de Baden e Vinicius e eles aprovaram."

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