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Fadiga de zoom

Até o começo desta pandemia, nós insistíamos que era preciso visitar os idosos, manter mais contato com eles, compartilhar refeições, abraçar

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2020 | 03h00

É irônico que muito do que a gente recomendava até março esteja tão diferente. Até o começo desta pandemia, nós insistíamos que era preciso visitar os idosos, manter mais contato com eles, compartilhar refeições, abraçar. Exatamente o que está proibido hoje em dia. E o quanto brigávamos com as crianças para sair da frente do computador e ir brincar lá fora com os amigos? A briga agora é oposta: fique aqui em casa e não tire os olhos do computador porque a professora está falando. E as tão criticadas redes sociais, acusadas de nos afastar das pessoas, em alguns casos, vêm sendo as únicas pontes a nos manter próximos de quem amamos.

Mas é hora de abrir o jogo: essas telas cansam. Mais do que imaginávamos.

Acho que esse efeito não acontecia antes porque não éramos forçados a passar tanto tempo nos comunicando por meio delas. Mas agora que saímos de uma reunião e entramos em outra, realizamos consultas, ligamos para os familiares, fazemos transações comercias, tudo por meio de videochamadas, fica mais claro como ela é antinatural. O que pode ser bem cansativo.

Manter a atenção durante uma reunião inteira na empresa já não é tarefa fácil. A distância então, olhando para uma tela que ora mostra um, ora outro – ou todos de uma vez, não sei o que é pior –, torna-se impossível. Prestar atenção é erguer barreiras a distrações para tornar mais saliente um objeto, sustentando nele o foco. Quando estamos frente a frente com as pessoas, é menos complicado fazer isso, já que a pessoa ali é mais saliente do que os estímulos concorrentes. Quando ela se torna uma imagem pequena, bidimensional, misturada numa miríade de outras imagens, o esforço para evitar as distrações é muito maior.

Além disso, há um desgaste extra imposto pelo desafio de interpretar as nuances da comunicação. As telas tornam impossível o velho olho no olho. Quando conversamos pessoalmente, os olhos fazem um passeio durante o diálogo, escaneando o rosto do interlocutor. No entanto, as telas para onde olhamos não ficam perfeitamente sobrepostas às câmeras que captam nosso olhar. Com isso, para transmitir a sensação de que estamos olhando para a pessoa, é preciso que olhemos diretamente para a câmera, impedindo-nos de ver seu rosto. Se queremos ver seu rosto, é preciso olhar para a tela, passando a impressão de que estamos desinteressados, já que apareceremos olhando meio de lado. Sem contar que a própria captação dos sinais não verbais, fundamentais para transmitir o tom da conversar, fica bastante limitada mesmo com o mais tecnológico dos aparatos.

E ainda existe o irritante atraso na transmissão do som. O famoso delay, que torna uma aflição qualquer tentativa de encadear um comentário sobre a fala do outro. Quando você ouve o sujeito e acha pertinente dizer algo sobre aquilo, o raciocínio dele já está em outro ponto, e seu comentário sempre chega atrasado. Fazer uma piada, então, é quase impossível. Você diz alguma coisa, espera a reação e ela não vem. Quando já estava aceitando que a piada não teve graça, todo mundo começa a rir. Mas aí você não estava mais sorrindo, e, na hora em que eles estiverem rindo, verão sua cara já séria.

O pior é que não vislumbro solução para esses desafios no curto prazo. Aposto que desenvolveremos as vacinas para a covid-19 antes de conseguirmos desenvolver o ambiente virtual a ponto de ele substituir completamente a comunicação presencial. E aí será tarde demais: quando voltarmos a usar essas tecnologias com moderação, esse cansaço vai passar. Como, aliás, a própria pandemia. Vai passar.

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