Faces de uma arte que quer ser pobre

Grupo criado por Jerzy Grotowski apresenta seu teatro ritualístico

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2013 | 02h10

É impossível pensar o teatro do século 20 (e também o do 21) sem recorrer a Jerzy Grotowski. Mesmo após a morte do diretor polonês, em 1999, seus conceitos - que falam em um teatro "pobre", centrado apenas no ator - continuam a influenciar artistas mundo afora. Mais do que isso. Dá para dizer que parte do seu trabalho permanece efetivamente viva, já que o centro que ele criou na cidade italiana de Pontedera, o Workcenter de Jerzy Grotowski e Thomas Richards permanece em atividade.

A partir de hoje, as atividades da instituição tomam o Sesc Consolação. Durante o evento Ocupação Workcenter de Jerzy Grotowski e Thomas Richards, que deve se estender por quatro semanas, serão encenados três espetáculos: I Am America, Eletric Party Songs e The Living Room. Paralelamente, também estão previstas duas oficinas com os diretores Thomas Richards e Mario Biagini, o lançamento de um livro, uma mostra de documentários sobre o grupo, além da performance Não aos Ossos da História - Um Concerto de Poesias.

O Workcenter de Pontedera já apresentou suas realizações por aqui. Em 1996, estiveram no País, acompanhados pelo próprio Grotowski. "Foi o nosso primeiro projeto na América do Sul, o que nos abriu muitas portas, mas também ampliou a presença de artistas vindos do continente no grupo", conta Mario Biagini. Hoje, há representantes de mais de dez países entre os intérpretes.

As três peças que a companhia exibe integraram a grade do Festival Internacional de São José do Rio Preto, no ano passado. Na ocasião, foi possível comprovar que todas elas, de diferentes maneiras, esforçam-se por atualizar as noções de seu fundador. Grotowski acreditava que o uso de cantos e de algumas ações era capaz de mobilizar formas distintas de energia. "É uma mágica que não tem nada de supersticioso", defende Richards.

Para que essa mágica se dê, o teatro deve funcionar como um ritual, situação em que atores e plateia vivenciam uma mesma experiência. "Um ator pode passar anos no palco, diante de milhares de pessoas, sem conhecer ninguém. Já os espectadores podem se sentar no escuro e apagar a sua individualidade", comenta Thomas Richards. "Não há nas peças uma regra que estabeleça que esse comportamento deva mudar. Não é uma necessidade, uma ordem. Mas existe a chance de que mude."

Em I Am America a aparência é de uma criação com feições "tradicionais" e os poemas de Allen Ginsberg servem para detonar uma reflexão sobre a América. Eletric Party Songs desdobra o olhar sobre Ginsberg, mas transporta sua obra para o contexto de uma grande festa.

Em The Living Room o ambiente também é festivo. Só que em uma proposta mais intimista. Espectadores sentam-se em poltronas e sofás, como se estivessem em uma sala de estar. Não existe propriamente uma trama. Os atores circulam pelo espaço, servindo vinho e petiscos. E, gradativamente, começam a entoar canções e declamar textos. "Queremos nos encontrar com as pessoas em um espaço que seja cotidiano", diz Richards. "E, a partir daí, passar a algo muito íntimo."

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