Faça o que eu digo, por enquanto

Não me lembro se já contei aqui como sou esquecida.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2012 | 03h08

Quando fico confusa, como fiquei lendo uma coluna recente, acho logo que o problema é meu, falta de memória. A internet perpetua com facilidade nossas elocuções e, como uma intrusa impertinente, mostra que uma opinião passional de hoje vira ao avesso o que dissemos antes. Mas, às vezes, nem é preciso revisitar o passado.

Veja, caro leitor, se fica confuso como eu:

"Para mim, a lição aprendida no Iraque é bastante simples: não se pode sair de Saddam e chegar à Suíça sem ficar encalhado em Hobbes - uma guerra de todos contra todos -, a não ser que se tenha uma parteira externa e bem armada, a quem todos os presentes temam e na qual todos confiem enquanto gestora da transição. No Iraque, esse papel coube aos Estados Unidos".

E, em seguida:

"Graças tanto à incompetência dos EUA quanto à natureza do Iraque, essa intervenção americana deu início a uma guerra civil na qual todos os envolvidos no Iraque - sunitas, xiitas e curdos - testaram o novo equilíbrio do poder, infligindo pesadas baixas uns aos outros e levando, tragicamente, a uma limpeza étnica que rearranjou o país em blocos mais homogêneos de sunitas, xiitas e curdos".

Os dois parágrafos fazem parte da mesma coluna, A Síria É Gêmea do Iraque, de Thomas Friedman, três Pulitzers, autor de seis livros, como O Mundo É Plano e o admirado De Beirute a Jerusalém, um dos mais influentes colunistas da língua inglesa. Se a barbárie que impediria o Iraque de ser uma Suíça foi superada graças à parteira América, como a incompetência da mesma parteira ajudou a começar uma guerra civil que levou à tragédia de uma limpeza étnica?

E em que planeta fica esse Iraque onde "todos confiam" na gestão pós-invasão, um desastre denunciado até por falcões que apoiaram a guerra? Em dezembro passado, 85% dos iraquianos queriam ver as costas de todas as tropas americanas e mais de dois terços da população se declararam aliviados com a retirada, a mesma porcentagem que não atribuía às tropas nenhuma melhoria da segurança.

Fui procurar confusos como eu e não me surpreendi com a interpretação de Matt Taibbi, da Rolling Stone, um velho crítico do raciocínio friedmaniano: "Quando a sua mulher precisa de ajuda para dar à luz, você deve contratar uma parteira que fique à porta e tenha uma metralhadora automática".

O público de Matt Taibbi é exponencialmente menor do que o de Thomas Friedman. E o espectro curto de atenção, que é um mal do nosso tempo, parece incentivar as pessoas com acesso ao palanque da mídia a se reinventarem. Quantos saberiam procurar um obscuro videoclipe de um importante programa de entrevistas americano, gravado em maio de 2003, em que ouvimos um descontraído e eloquente Friedman dizer:

"Não há a menor dúvida de que valeu a pena invadir o Iraque. Precisávamos ir lá e esvaziar a bolha do terrorismo" (e dizer a eles) "Vocês não acreditam que nós nos importamos com a nossa sociedade aberta? Tomem esta!"

Friedman escreveu seu elogiado manifesto verde Quente, Plano e Lotado e fez sermão sobre os riscos da explosão do consumo de energia em economias emergentes da sua confortável mansão de 1.100 m² num subúrbio de Washington, não exatamente um exemplo de sustentabilidade.

A transformação econômica que fechou jornais e dizimou o contingente de repórteres entre os sobreviventes provocou uma explosão populacional do colunismo. Toda semana, eu recorro a um grupo de comentaristas em que confio para compreender um mundo em que a informação não verificada é epidêmica, graças ao que hoje passa por jornalismo.

O tortuoso estilo retórico de Thomas Friedman, que seus críticos apontam como um recurso para distrair atenção da incongruência de seus momentos de eureca, transformados em best-sellers e turnês de palestras, inspirou uma paródia hilariante na revista literária McSweeney's. A revista convidou o leitor a criar a sua própria coluna de Thomas Friedman sob o título "Desordem e Sonhos em (preencha aqui o nome do país)". Em seguida , o texto oferecia múltipla escolha de diagnósticos para o que acontece em qualquer lugar visitado pelo peripatético defensor (ou crítico) da globalização, cuja opinião sobre a guerra justificada (ou desastrosa) parece evoluir como a cor do cabelo da Katy Perry.

Há alguns anos, Friedman deu a seguinte justificativa para o fato de sua carreira anterior ter sido escassa em reportagens de primeira mão: "Venho de uma geração em que publicar algo falso no New York Times era um pecado imperdoável".

Concordo plenamente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.