Fábulas fabulosas

Em O Livro das Coisas Perdidas, John Connolly provoca arrepios ao tratar da morte para crianças

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h10

O escritor irlandês John Connolly dá uma pista sobre as surpresas que vão salpicar em sua obra O Livro das Coisas Perdidas (Bertrand Brasil) logo na epígrafe, ao citar uma frase de Pablo Picasso: "Tudo o que se pode imaginar é real." Acredite, é verdade - ao narrar a trajetória de David, garoto de 12 anos que se isola depois de perder a mãe doente, refugiando-se em seu mundo de livros, Connolly oferece uma original história de formação ao transgredir os contos de fadas e surpreender o leitor com uma narrativa arrepiante e até chocante.

Um dos autores mais lidos em seu país na atualidade, Connolly vai além no uso do sarcasmo e do grotesco que outras sátiras sobre personagens fabulares. Afinal, em seu livro, Branca de Neve, por exemplo, é uma moça desprezível, que ronca mais que os anões e é jurada de morte por eles. "Fui alterando as fábulas naturalmente, sem ter premeditado", explica Connolly ao Estado por e-mail. "Em um primeiro momento, também achei muito estranho, mas continuei porque acredito serem histórias que estavam presas em meu subconsciente e, ao escrevê-las, dei-lhes uma saída."

O menino David é a figura central do romance, obra que incendiou as discussões nas redes sociais por conta de sua violência explícita - há cenas de decepamento e empalamento. Depois de ficar órfão da mãe, ele não aceita o novo casamento do pai, muito menos o nascimento do meio-irmão. Levado a um psicólogo por conta de sintomas estranhos (começa a ouvir murmúrios), David descobre que o barulho da sua cabeça é, na verdade, o conjunto de vozes que saem dos livros que tanto adora.

É hilariante, por exemplo, a cena em que, durante uma sessão marcada por psicologismos baratos, ele ouve seus personagens gritarem impropérios como "charlatão" até o momento em que um livro sobre Jung, não suportando mais a situação, salta subitamente da prateleira, deixando o psicólogo de olhos arregalados.

"David é certamente uma versão minha quando moleque: fui uma criança que via o mundo sob o prisma dos livros, um tipo solitário, ligeiramente preocupado demais", lembra Connolly. "Meu quarto era o sótão adaptado e vivia repleto de livros. E, como eu, David também tem Transtorno Obsessivo Compulsivo, embora isso não seja tão raro na adolescência. Além disso, a experiência psiquiátrica sofrida por ele se assemelha à minha: fui o primeiro da minha família a ser tratado. Minha mãe ficou tão orgulhosa..."

Ambientado durante a 2.ª Guerra Mundial, quando os habitantes de Londres viviam preocupados com a iminência de bombardeios nazistas, O Livro das Coisas Perdidas lida continuamente com a ameaça da morte, seja de um ente querido, seja do próprio personagem. "Não passei pela experiência de perder alguém da família até os 20 anos, quando morreu meu pai", conta o escritor. "Adquiri consciência da finitude, no entanto, quando comecei a conviver com meus avós: eles moravam no andar debaixo e meu avô morreu dormindo em casa quando eu era menino. Foi aí que criei a conexão entre seu desaparecimento e a possibilidade de eu perder meus pais. Novamente: acho que é um temor sofrido por qualquer adolescente, seja pela morte ou pela rejeição. É por isso que os contos de fadas são tão potentes: eles tocam nessas questões repetidamente. Nesse sentido, como em tantos outros, têm uma psicologia apurada."

Connolly reconhece não ter escrito um livro para crianças. "Melhor dizer que é uma obra sobre a infância para adultos." Mesmo assim, muitos de seus leitores são adolescentes - especialmente os identificados com o drama de David. "Algumas dessas crianças perderam um dos pais muito cedo e, assim, se conectam com a ira e a dor de David de uma forma visceral. Nunca sei bem o que dizer para quem já suportou isso - só posso esperar que esse livro um tanto estranho crie algum tipo de empatia, a fim de que o leitor saiba que sua dor é entendida."

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