Fábula sobre dois heróis e uma família fraturada

Gostei. Como todo roteiro de M. Night Shyamalan - e o de Depois da Terra é dele, embora o argumento seja do astro/produtor Will Smith -, o do filme que estreia hoje contém duas fábulas. Uma trata da família e constrói-se segundo cânones do melodrama; a outra remete ao cinema e utiliza ferramentas de gêneros, ficção científica e/ou terror. Pode não representar muita coisa. Depende do olhar de quem vê. O pior cego é o que não vê, ou minimiza o que decidiu não ver.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2013 | 02h07

Depois da Terra é uma fábula sobre dois heróis. No começo, um deles está recebendo uma continência respeitosa e, no final, é ele quem a presta. Em ambos os casos, o homem que reverencia está tão debilitado que precisa ser amparado no gesto. Cypher, o herói do começo, é um homem que precisa aprender a ser pai - como o protagonista do novo filme de Hirokazu Kore-eda, que concorreu em Cannes, Tal Pai tal Filho. O filho precisa aprender a superar o medo, o que ele faz testando seus limites.

As referências a Moby Dick, de Herman Melville, não estão lá por acaso. Nem as frases colocadas no cartaz, como chamadas publicitárias - 'O perigo é real, o medo é uma escolha'. O próprio fato de o garoto (Jaden Smith) ter de escolher, ou poder escolher, coloca o tema do livre-arbítrio. Com ele, entra uma questão teológica. E o Capitão Ahab, em Moby Dick, enfrenta o próprio Deus na baleia branca.

O garoto em Depois da Terra é o novo Ismael. Náufrago de um novo tempo. Não significa nada para quem não entra no mistério de Depois da Terra. É tudo para quem viaja no intimismo da trama, a despeito das peripécias (que remetem, talvez, a um filme de verão). A família é sempre fraturada no cinema de Shyamalan. Ausência do pai em O Sexto Sentido, morte da mãe em Sinais, da irmã/filha em Depois da Terra. O filme é rico, emocionante. O mais belo de Shyamalan? Sem dúvida, mas, como todo filme, os sinais estão no olho de quem consegue ver.

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