Fábula punk

Paulo José dirige peça sobre autora que fingiu ser um adolescente

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h10

Há mentiras que fazem tanto sentido que deviam ser verdade. É mais ou menos esse o argumento que move JT - Um Conto de Fadas Punk, novo espetáculo dirigido por Paulo José. A peça, quepassou por Brasília , Rio e chega a São Paulo, no CCBB, em junho, conta uma história que fazia todo o sentido. Na qual todo mundo queria acreditar. Mas nem por isso tinha acontecido...

Ele era um menino frágil, viciado em heroína, abandonado pelos pais, vítima de abusos e maus-tratos. Até que começou a escrever sobre o próprio calvário e fez da arte uma tábua de salvação.

Seus livros eram um assombro. Jeremiah Exterminator LeRoy transformou-se no assunto do momento. Madonna, Dennis Hooper, Gus van Sant tornaram-se leitores ardorosos de sua obra. E, quase imediatamente, seus amigos.

O tal "enfant terrible", porém, não era exatamente quem parecia. Por trás de best-sellers como Maldito Coração, não estava um adolescente de 16 anos, mas uma mulher de 40. Seus episódios autobiográficos eram pura ficção. A "encenação" durou cerca de dez anos. E muita gente ficou furiosa quando a New York Magazine desvendou o caso, um verdadeiro terremoto na cena literária do dos anos 2000. "Eu me interessei por esse assunto porque estou cansado de bons sentimentos", diz Paulo José. "O sujeito hoje quer ser vilão, que é simpático. Mas mau, pulha, canalha ninguém quer ser."

Escrito pela dramaturga Luciana Pessanha, JT - Um Conto de Fadas Punk retrata como a escritora norte-americana Laura Albert assumiu a persona de JT. "O que me instiga nesse texto é a atitude punk. Só isso explica o que ela fez", comenta o diretor. "No Rio, não existe essa coisa punk. Tudo aqui se resolve com uma cervejinha."

Nessa montagem, é Débora Duboc quem assume o papel da performática escritora. "É incrível a maneira como ela ficcionaliza a própria vida. Pirandello dizia que a arte não imita a vida, melhora. É isso que ela faz: Deixa a arte invadir tudo", observa a atriz, que contracena com Natalia Lage. Coube à jovem intérprete o papel de Savannah Knoop- a cunhada de Laura que, durante anos, travestiu-se de menino para ser a face pública de JT LeRoy.

Ao construir a encenação, Paulo José contou com a parceria de Susana Ribeiro. "É uma história que foge ao controle dela e ganha vida própria, o que é, afinal, o grande assunto do teatro", resume a diretora.

Juntos, eles conceberam um espetáculo que utiliza a música como esteio. Antes de enveredar pela literatura, Laura tentou ser vocalista de uma banda punk. Sonho, aliás, do qual nunca desistiu. No palco, a trama surge entremeada por números musicais. Ao vivo, os atores tocam guitarra, baixo, bateria.

Uma constante nas produções recentes de Paulo José são os recursos audiovisuais. Tanto em Ana Cristina César - Um Navio no Espaço quanto em Histórias de Amor Líquido, o diretor se vale fartamente de projeções.

No caso da atual montagem, vídeos ajudam a trazer supostos depoimentos de quem teria convivido com JT. Soam como um documentário. Lembram que a ficção de Laura não é propriamente uma mentira. É u- ma quase verdade.

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