Felipe Rau/ Estadão
Felipe Rau/ Estadão

Fábula das formigas das ruas

Gilberto Gil fala de movimentos sociais e diz ver desequilíbrio na relação entre público e privado

UBIRATAN BRASIL - ENVIADO ESPECIAL,

05 de julho de 2013 | 02h11

Quando conversou com a imprensa nacional e estrangeira, no início da tarde de ontem, em Paraty, Gilberto Gil não se mostrava disposto a comentar sobre as manifestações de rua que vêm ocorrendo nas últimas semanas no País. "É um movimento cíclico, em que a insatisfação das pessoas, em um dado momento, se transforma em ação", limitou-se a dizer. Horas depois, porém, já como conferencista da Flip, o músico desenvolveu o tema. "Acompanhamos hoje a manifestação do cansaço", disse.

Gil participou do debate Culturas Locais e Globais ao lado da pesquisadora Marina de Mello e Souza. O propósito era alavancar uma discussão que envolvesse Paraty e sua constante dualidade entre ser uma cidade preservada ou liberada ao turismo destrutivo. Ele confidenciou que, quando foi ministro da Cultura (2003- 2008), um grande amigo, empresário paulista do ramo hoteleiro, pediu sua interseção para aprovar o projeto de construção de um grande empreendimento em Paraty, vetado pelo Iphan. "Respondi que não podia fazer nada, o trabalho era dele."

O músico, que fez o show de abertura da Flip na noite de quarta-feira, defendeu que somente a ação dos indivíduos junto ao governo (tanto local como federal) é que pode estancar uma nociva tendência histórica, infelizmente ainda muito atuante: a do Estado respeitar mais o interesse privado que o público. Um bom exemplo estava no público, onde duas faixas foram erguidas por grupos que defendem a manutenção dos costumes locais: "Fórum das Comunidades Tracionais" e "Em Defesa dos Sem Território".

Era a deixa para Gil comentar as manifestações de rua - o músico observou que os movimentos sociais têm três características próprias, que ainda pedem uma análise mais detalhada.

"Primeiro, porque grande parte do ajuntamento daquelas pessoas, a maioria jovens, se parece com uma rave, eles se encontram com um propósito cultural e também de diversão, o que explica sua eficácia", disse. "Em segundo lugar, existe o aspecto de arrastão, praticado por aqueles que foram marcados pelo ferrão da História, quer dizer, os menos favorecidos. Mesmo esses, tachados de vândalos pela classe média, têm suas motivações, ainda que sejam discutíveis."

Em seguida, Gil nomeou o fato que mais o impressiona: a rápida e eficiente capacidade de organização pelas redes sociais. "A polícia não tem mais a facilidade de antigamente, quando bastava derrubar o alto-falante que gritava no meio da praça", observou. "E há a proteção do anonimato, tanto pela internet, no qual é possível não revelar o rosto, como pelas máscaras utilizadas por muitos jovens, que fazem lembrar o carnaval de Veneza, em que os mascarados, protegidos, podem fazer o que bem entendem."

Gil comparou a organização dos movimentos ao trabalho das formigas: mal se percebe a ação individual até que o buraco surge, para o espanto dos desatentos. "As manifestações fazem furos no chão aparentemente sólido da sociedade", filosofou.

A relação entre literatura e política foi lembrada por Gil à tarde, quando conversou com jornalistas. Notadamente o trabalho de Graciliano Ramos, homenageado da Flip deste ano. "Passei minha infância na caatinga, onde a paisagem é bem descrita por Graciliano em sua obra", disse. "Também quando minha geração se interessou pela questão social do Brasil, os livros dele se tornaram uma referência."

Gil também comentou a aprovação no Senado, na quarta, do projeto de lei que regulamenta a atuação do Ecad. "Era uma demanda que se manifestava cada vez mais forte e a classe artística vem sofrendo um grande impacto provocado pela transformação tecnológica, que exige adaptações, especialmente no mercado audiovisual, e, portanto, novas formas de verificação", disse. "Isso explica esse envolvimento inédito dos artistas (vários estiveram anteontem em Brasília), o que faz aumentar a expectativa para que o projeto seja também aprovado pelos deputados."

Copa. Gilberto Gil era um garoto de 8 anos quando o Brasil perdeu para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950. "Sofri um enorme trauma", relembra. "Mesmo que isso não pareça muito grave, eu realmente fiquei tocado." A tal ponto que Gil se revela um dos grandes defensores da realização de outro Mundial no Brasil, o de 2014, muito contestado nas manifestações sociais por conta das suspeitas de gasto excessivo na construção e reforma de estádios.

"Não desconheço essas denúncias, e todas devem ser apuradas, mas acredito que devemos lutar pela Copa e, principalmente, por uma maior democratização na formação da torcida." Gil não se sente à vontade com a imensa maioria de torcedores abonados que hoje frequentam os estádios. "Sinto falta do arco-íris na arquibancada, ou seja, aquela paleta de cores de pele variadas."

Ele conta que assistiu à final da Copa das Confederações no Maracanã, entre Brasil e Espanha, e não escondia a tristeza a cada vez que os jogadores comemoravam o gol com a galera. "A maioria era de brancos. Por isso, deveríamos incentivar a criação de uma ONG (ou até convencer um banco) a comprar ingressos da Copa e revendê-los a prestação para os menos abonados."

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