Fabíola sem aura

O artista belga Francis Alÿs mostra na Pinacoteca sua coleção - que continua a crescer - com 400 reproduções da santa romana, pintada por Henner

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2013 | 02h10

Uma santa audaz como Fabíola, vítima de abusos e divorciada, só podia mesmo ter como "devoto" um artista ousado como o belga Francis Alÿs. Retratada, em 1885, pelo francês Jean-Jacques Henner (1829-1905), Fabíola, que viveu no século 4.º, virou febre entre os cristãos de todo o mundo com seu véu vermelho e perfil de matrona romana. De fato, foi assim que Henner concebeu a padroeira das enfermeiras e das mulheres maltratadas pelos maridos. Cansada da violência do seu, ela pediu a separação, tentou novo casamento, mas perdeu o segundo companheiro, renunciando, então, aos prazeres terrenos sob influência de São Jerônimo. Dedicando-se à caridade, foi ela a fundadora do primeiro hospital público católico, em Roma. Embora a história impressione, não foi a santa, mas sua imagem, a origem do que viria a se tornar uma obsessão na vida de Alÿs, vanguardista presente nas mais destacadas mostras internacionais. Hoje, na Pinacoteca do Estado, Alÿs abre uma exposição com nada menos do que 400 reproduções do quadro de Henner, perdido desde 1912.

Foi num desses mercados das pulgas europeus que Francis Alÿs topou com a primeira réplica de Fabíola. E não parou mais de colecionar imagens da santa, pedindo a amigos que enviassem reproduções de todo o mundo. Conhecido por perseguir tornados nos planaltos ao sul da Cidade do México, onde vive, Alÿs é visto como uma figura excêntrica no circuito das artes. Ex-engenheiro e arquiteto, mudou-se para o México em 1986, ingressando no meio artístico em 1990. Seus primeiros trabalhos eram, digamos, performáticos. Há 20 anos saiu com um cachorrinho de brinquedo feito de ímãs pelas ruas da Cidade do México, chegando ao fim da jornada como uma espécie de Robocop coberto de metais. Em 1997, empurrou um bloco de gelo até derreter. Em 2002, convenceu 150 voluntários a participar de uma procissão, carregando (em palanquins) obras-primas do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), de Manhattan até Queens - acompanhados por cavalos e ainda uma banda peruana.

Curadora da exposição na Pinacoteca, a professora Lynne Cooke, do Center for Advanced Study in the Visual Arts da National Gallery de Washington, deixa claro que a devoção de Francis Alÿs pelas reproduções de santa Fabíola não é religiosa, mas artística. Impressionado com as réplicas que perseguem certa fidelidade ao modelo perdido de Jean-Jacques Henner, Alÿs descobriu que existem mais diferenças do que semelhanças entre os retratos. O próprio Henner pintou um retrato ficcional eventualmente inspirado em romances históricos do tipo popularizado por sir Walter Scott. O cardeal Nicholas Wiseman (1802- 1865), primeiro bispo de Westminster e autor do livro A Igreja das Catacumbas (1854), sobre os primeiros santos da Roma pagã, teria transformado Fabíola de "uma obscura figura feminina cult" numa popular santa como Expedito, o santo das causa urgentes.

Para que a exposição não ficasse parecida com as salas de ex-votos das igrejas, Alÿs veio a São Paulo supervisionar pessoalmente a montagem das 400 reproduções, que incluem desde réplicas que se pretendem fiéis a Henner como livres recriações do original - feitas, inclusive, de insólitos materiais, como grãos de feijão e cevada, além de pequenos bordados. "Tão venerada foi a imagem criada por Henner que tanto a santa como ele ganharam renome a partir do fim do século 19", comenta a curadora, que, em texto sobre a coleção, conta um engraçado episódio envolvendo uma instituição que exibiu a mostra. "Alÿs mandou 60 peças de sua coleção de Fabíolas para uma mostra em Saarema, na Estônia, em 1997, e, quando elas retornaram, descobriu que 30 delas tinham sido substituídas por cópias um tanto rudimentares para simular as 'originais' que, misteriosamente, desapareceram na viagem. Os estonianos quiseram enganar o próprio colecionador com suas "falsificações".

Está certo, Henner (ele mesmo um copista de Ticiano e Rafael) não foi propriamente um Rembrandt, mas era mestre retratista que recorria com frequência ao 'sfumato' para realçar seus modelos, seguindo a fórmula consagrada pelos renascentistas (a técnica existia antes deles). Nenhuma réplica em exposição tem a sutileza dos outros retratos do francês - quanto ao original de Fabíola, é impossível avaliar, uma vez que jamais foi encontrado. Alÿs, desnecessário dizer, não está interessado na qualidade artística desses retratos, mas na visão subjetiva de quem copiou a Fabíola de Henner e, especialmente, na tese de Walter Benjamin sobre a perda da aura de obras artísticas na era da reprodutibilidade. A rigor, a obra de arte sempre foi reprodutível, mas, mesmo na reprodução mais perfeita, dizia Benjamin, um elemento está ausente: o aqui e agora dessa obra, sua existência única. Em tempos de reprodução digital, essa aura, então, vira fumaça. A reprodução desvaloriza, atrofia essa aura, banaliza a imagem.

A pergunta que incomodava - e ainda incomoda - Alÿs desde que começou a coleção diz respeito tanto ao papel do mercado de arte e seu impacto na produção artística como à perturbadora reprodução da imagem da santa, o modo como se organiza a percepção de quem copia Henner. "Por que essa imagem em particular?" "O que dá a ela esse poder de resistir primeiro à reprodução mecânica e agora à digital?", pergunta a curadora. Ela mesma responde num ensaio: "A coleção de Alÿs se distingue das outras, organizadas por artistas, por conta de seu preceito fundador: ela se baseia em cópias, não em originais, valorizando o trabalho do artesão, do anônimo". E esses anônimos, obviamente, preferem pintar Fabíola porque a figura aparece de perfil, que é muito mais fácil de reproduzir.

Alÿs vê cada uma dessas Fabíolas, segundo a curadora, como obra autônoma, "que projeta uma espécie de ideal da figura feminina, disfarçando, conscientemente ou não, o modelo do rosto real, familiar, que inspirou o artista". De certo modo, é possível traçar uma correspondência analógica entre essas Fabíolas anônimas e as Marilyns do pop Andy Warhol. Warhol descobriu, como os fauves, que a simples alternância de cores pode mudar uma figura. Entrando na sala onde estão as Fabíolas, pode-se dizer que, esvaziada do mito pelas diferenças tonais do véu, ela nunca foi santa, como Marilyn. Apenas uma mulher.

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