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F de Falso

Uma coluna se despediu dos leitores na semana passada. Caitlin Dewey anunciou o fim de sua coluna mas não de seu trabalho no jornal Washington Post. A coluna What Was Fake (O Que Era Falso) morreu soterrada pelo excesso de matéria prima para desmentidos.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2015 | 05h53

A propagação de falsidades conspiratórias como tal vacina provoca uma doença antes contava com ignorância alimentada por temor. Mas hoje o logro é parte integral da economia na Internet. Há uma grande proliferação de sites de notícias falsas e não falo de sátira explícita e frequentemente hilariante como The Onion, mas sites como Empire News e The Daily Currant. O fenômeno, que se soma às ameaças à prática de jornalismo, não surpreende pesquisadores. Eles usam a expressão “barreira da credulidade.” Quando ela é vencida, ficções assumem vida própria.

Na minha adolescência carioca, encontrava colegas de manhã cedo no ponto de ônibus no Flamengo e nos juntávamos a outros a caminho do colégio. Uma de nossas traquinagens era conversar em voz alta inventando algo sobre uma figura pública para testar a força de um boato. Era um mundo analógico e nosso esforço de confundir pessoas nunca teve sucesso além daquela linha circular entre Copacabana e a Glória.

Sabemos que as pessoas serão atraídas por qualquer conteúdo que reforce suas expectativas e preconceitos. Esta busca por confirmação encontra hoje o exemplo mais visível na figura de Donald Trump. Um grupo de foco convocado este mês por uma conhecido pesquisador eleitoral norte-americano, Frank Luntz, reuniu numa sala admiradores do pré-candidato republicano a presidente. Nas entrevistas, alguns admitiam que Trump inventa absurdos, mas pareciam aceitar a mentira serial como um traço da personalidade bufona e não um impedimento para um homem que quer ter acesso ao botão nuclear.

Um estudo do Massachusetts Institute of Technology, o MIT, analisou, em 2014, a trajetória de falsas notícias virais e concluiu que o público mais desconfiado do jornalismo tradicional, o que acusa a grande mídia de manipulação, tende a ser o mais suscetível a trotes. “Teorias conspiratórias se formam num processo em que comentário satírico ou conteúdo obviamente falso salta a barreira da credulidade,” afirmou o estudo.

A pseudossátira e a invencionice se tornaram uma forma de hiper-realidade que prospera especialmente num ecossistema como o Facebook, com seus 1.5 bilhão de usuários. O Brasil está no topo da lista de países que consome notícias pelo Facebook, com 67% de brasileiros se informando sobre o mundo pelo site. Na geração de millennials – de 18 a 35 anos – dos Estados Unidos, 61% só se informa sobre política via Facebook. E possível que boa parte destes jovens saiba que o feed de notícias do Facebook é uma seleção produzida por algoritmo e destinada a confirmar o que a pessoa já curte e descurte, um fato amplamente divulgado e debatido em livros sobre a era digital.

Um professor de Harvard, Jonathan Zittrain, chegou a propor que o Facebook se declare um “fiduciário de informação”. Como detentor do acesso a grande quantidade de dados sobre nós, o site se comprometeria a não usar algoritmos para filtrar notícias, não mais reduziria o feed de notícias de pessoas cuja preferência ideológica detectou a apenas 5% ou 8% de conteúdo político de tendência oposta. Zittrain e outros acadêmicos temem a erosão da democracia neste oceano de informação filtrada.

Ao encerrar a coluna O Que Era Falso, Caitlin Dewey recordou uma entrevista com Paul Horner, dono de vários websites de notícias falsas. Horner contou que concentra boa parte de seus esforços na produção de conteúdo que provoque a cólera de brancos de meia idade, “um público ideal,” segundo ele. Algo que Donald Trump está cansado de saber, sem consultar algoritmos.

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