Extraordinárias experiências com a dança

Enquanto Belo Horizonte viu a radicalidade do FID, São Paulo acompanha festival com tons autorais

Helena Katz - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

10 de novembro de 2013 | 21h34

Uma curadoria que se assumiu como uma ação educacional transformadora e, ao longo dos 18 anos de seu exercício, se constituiu como uma pedagogia da autonomia, no sentido paulofreiriano dessa terminologia. Essa tem sido a tônica da ação de Adriana Banana, a diretora artística e curadora do FID – Fórum Internacional de Dança (http://www.fid.com.br. Não à toa, veio modificando, ao longo desse tempo, tanto o cenário mineiro para a dança contemporânea quanto a própria produção local, que estimulou, projetou nacionalmente, e hoje se destaca como uma das mais consistentes do País. Veio formando e educando plateias e transformou a radicalidade na sua assinatura.

Os cinco espetáculos mostrados na primeira semana dão bem a ideia daquilo que move Adriana Banana e Carla Lobo, a diretora executiva e produtora, juntas desde o início deste projeto (1996). A cada FID, um novo eixo é proposto e, neste, a escolha não poderia ser mais justa do que “Dança que Mobiliza, Transforma”. Porque transformação é mesmo o traço que alinhava tudo o que está sendo mostrado neste fórum, que se apresenta com o slogan “18 anos de dança pra todo mundo”.

Quem entrou no Paraíso – Colecção Privada, de Marlene Monteiro Freitas, de Cabo Verde, que faz parte do Coletivo português Bomba Suicida, teve uma das mais extraordinárias experiências com dança dos últimos tempos. Sua discussão sobre o poder é feita por cinco intérpretes (sendo ela a única mulher) da mais refinada competência em fazer do insólito e do inusitado um ambiente sem arestas. Poucas vezes a imaginação borbulhou com tanta justeza um mosaico tão surpreendente de seres elaborados pela truculência de desejos desconexos. A ordem simbólica se monta e se desmonta ao sabor de uma noção de que tudo lá é inadequado e, ao mesmo tempo, enfeitiçador. Na verdade, desse paraíso não se sai mais, pois ele se impregna com a força daquele tipo de contundência de um peso sem gravidade.

No Tempo e Espaço: os solos da Marrabenta, de e com Panaibra Gabriel Canda, com música ao vivo de Jorge Domingos, de Moçambique, a discussão do colonialismo é levada para dentro, sem vilões externos, desencaixando os papéis de algoz e vítima para recuperar uma agudeza para se pensar a questão da identidade como pluralidade tecida por tensões. Key e Zetta, de São Paulo, esgarçam o o-brigado/obriga-do/o-briga-do que trazem para o título de sua criação de 2012, Obrigado por Vir, que recriou a primeira versão, de 2005, para a companhia, composta pelos excelentes Beatriz Sano, Andre Menezes e Marina Massoli. A qualidade da movimentação de cada um é quase um parque temático com uma atração mais instigante que a outra.

Sílvia Real, de Portugal, mostra em Tritone como realizar o difícil propósito de fazer dança para criança enfileirando imagens comuns em outra moldura. Embora a aparência seja a de uma tirinha de quadrinhos, que apenas vai enfileirando uma na sequência da outra, trata cada uma delas com a síntese que distingue uma charge.

André Masseno, do Rio de Janeiro, faz esquecer o tipo de tratamento habitualmente praticado em espetáculos de gênero. Seu O Confete da Índia é de um apuramento só. Uma mistura bruta que aperta peças pingadas pelo pop (do Chá de Calcinha, de A.Bronkka/Gaby Amarantos, ao Índia, com Gal Costa, passando pelo Xanadu, de Olivia Newton-John) entre colchetes tropicalistas. E revela um artista com todas as letras em maiúsculo e, nesse seu momento específico, também em néon.

Enquanto Belo Horizonte foi mergulhada no FID, São Paulo respira o Festival Contemporâneo de Dança - FCD, que ocupa a Galeria Olido e a Funarte ao longo do mês de novembro. Sua primeira semana foi ocupada por Sofia Dias e Vitor Roriz, de Lisboa, e por Michelle Moura, de Curitiba. A dupla portuguesa vai organizando, com uma preciosa justeza, cada um dos arabescos que vão compor a sua estamparia e, ao final, a estendem em um balcão de ofertas de babuskas (aquelas bonecas que vão saindo uma de dentro da outra) chamado Um Gesto que Não Passa de uma Ameaça. Cada mínimo detalhe tem a ver com o outro mínimo detalhe, dentes de um mesmo serrote afiado. Palavras e movimentos se enovelam neste tonel sem fundo, no qual um se espreme no outro.

Michelle Moura faz do seu Fole um monossílabo: ar. O ar que o corpo inspira e expira. Às vezes, vento encanado, às vezes mastigado a ponto de virar som. Tem corpo para tudo, nesse mundo da dança, e, às vezes, ainda aparece um que, ainda bem, passa pelas cancelas estabelecidas e abre as tampas das trajetórias por percorrer. Michelle Moura vai cavocando, cavocando, e as materialidades vão aparecendo e se enfileirando no seu corpo-varal. Pura artesania escorada em castiça dedicação.

Adriana Grechi, diretora artística, e Amaury Cacciacaro Filho, diretor geral, conceberam um festival de traços muito autorais: escapam do formato do evento concentrado, pois apresentam os espetáculos escolhidos em minitemporadas, e investem no acompanhamento dos trabalhos dos artistas com quem trabalham, sem hesitar em repetir nomes na sua programação. Um exemplo é a volta de Fernando Belfiore, que esteve na edição passada do FCD.

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