'Êxtase' traz o desalento dos trabalhadores sem futuro

Peça do dramaturgo e cineasta inglês Mike Leigh traça o perfil de uma geração perdedora, mas otimista

31 de março de 2010 | 21h04

Briga e cantoria marcam discussão sobre o passado da trupe. Foto: Lenise Pinheiro/Divulgação

 

Ubiratan Brasil - SÃO PAULO - Cidadãos afastados do poder sensibilizam o dramaturgo e cineasta inglês Mike Leigh. É o que comprova a tragicômica peça Êxtase, que estreia hoje, no CCBB. Jane (Erika Puga) é uma operária que mora em um apartamento apertado, trabalha em um lava-carros e leva uma vida solitária. É amiga da falastrona Jean (Amanda Lyra), que é casada com Mick (Mário Bortolotto), operário que se embebeda depois de receber o pagamento. Uma noite, aparece Leo (Eduardo Estrela), ex-namorado de Jane, e os quatro relembram a juventude, que envolve ainda Di (Amanda Lyra). Roy (Francisco Eldo Mendes) e Val (Fernanda Catani). Com direção de um estudioso da obra de Leigh, Mauro Baptista Védia, a peça é a preferida do inglês, como conta na seguinte entrevista, por telefone.

 

Enquanto seus filmes têm uma ponte com a sátira, Êxtase é profundamente naturalista. Por quê?

Bem, nem todos os meus filmes são satíricos e até acho que a peça é próxima de muitos de meus longas. Na verdade, minhas peças são tão distintas como os filmes. Veja o caso de Festa de Abigail, mais cômica, enquanto Êxtase é mais seco por tratar de um tema pouco divertido, que são esses jovens desiludidos com a vida e com o trabalho.

 

A vulnerabilidade dos personagens é mantida em um nível pessoal, mas quase nenhum diálogo faz referência a esse desespero.

Sim, porque está na forma de representação do comportamento dessas pessoas. Especialmente no segundo ato, quando os personagens tentam demonstrar uma certa perseverança, uma capacidade de aproveitar a vida, apesar da evidente desesperança.

 

Há alguma cena de seu preferência em Êxtase?

Bem, o segundo ato é uma celebração da vida, quando há algumas cenas que me agradam muito. Mas, para ser franco, não posso responder com precisão, pois Êxtase é um dos meus textos favoritos - e olha que já se passaram 30 anos desde sua estreia.

 

Seus textos têm um indisfarçável tom pessimista. O senhor é assim?

A vida é alentadora ou desesperadora, depende do ponto de vista. Se, por um lado, meu trabalho parece triste, por outro ele não existiria se eu não acreditasse no futuro. Meu mais recente filme, Simplesmente Feliz, fala de uma mulher basicamente otimista - afinal, é uma professora e depende do futuro. Por outro lado, um filme mais antigo, Naked, é sobre um rapaz desiludido com o mundo que o cerca. Agora, sobre Êxtase: é uma peça sobre pessoas que têm esperança, apesar de a vida ser dura. Assim, tal complexidade me impede de ser simplista ao separar otimistas de pessimistas. É o que busco captar em meu trabalho, sem conclusões definitivas.

 

Êxtase - CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, telefone 3113-3652. 3ª a 5ª, 19h30. R$ 15. Até 10/6

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