Expresso 2222 chega no próximo domingo

Em 1972, Gil voltou do exílio com uma nova visão musical. Até então, seu último disco, Gilberto Gil (Nega), registrara o cantor e compositor baiano sob forte influência da cena de rock londrina, trazendo ótimas versões abrasileiradas de clássicos como Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, Up From the Skies, de Hendrix, e Can"t Find My Way Home, de Steve Winwood.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Quando recebeu notícias da possibilidade de um regresso, abandonou as gravações de seu segundo disco inglês e voltou imediatamente. Como era de se esperar, a alegria de rever a Bahia o levou a matar a sede nas fontes mais profundas do cancioneiro nordestino. Gil chegou ao Brasil em janeiro e no fim de abril já dava os últimos retoques em sua nova obra. O resto, como dizem, é história, e pode ser conferido no relançamento de Expresso 2222, pela Discoteca Estadão, nas bancas no próximo domingo, dia 26.

O disco abre com a Banda de Pífanos de Caruaru bordando o baião instrumental Pipoca Moderna, criado por Sebastião Biano. É uma abertura de criatividade ímpar que introduz com inteligência a nostalgia tropicalista que colore o disco.

Na faixa seguinte, Back in Bahia, que no mesmo ano teve regravações de Wanderléa e Ternurinha, Gil canta: "Naquela ausência de calor, de cor, de sal, de sol, de coração pra sentir tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim."

Mas essa retomada de raízes musicais nada tem de saudosista e, em vez de buscar abrigo no idioma tropicalista estabelecido anos antes, Gil retoma as experiências que deixara em aberto como ponto de partida para novas viagens. Isso fica claro em seguida, com a dissonante versão de Canto da Ema, hit emplacado por Jackson do Pandeiro em 1956. Acompanhado da guitarra de Lanny Gordin, o músico transforma a melodia em fio de narrativa para um pop experimental vanguardista, que vai do atonalismo ao hard rock sem perder o pé na tradição rítmica nordestina.

A homenagem a Jackson continua em Chiclete com Banana, famosa embolada anti-imperialista de Gordurinha que se torna um paradoxo nas mãos de Gil, pois botar bebop em seu samba é exatamente o que o baiano faz. Munido de acordes jazzísticos e uma síncopa abençoada, Gil cria um modo de tocar samba completamente original, que reverbera na tradição violonística brasileira até hoje. Sua batida tem raízes na bossa, mas as unhas se cravam na síncopa com mais força, traduzindo, como na escola de Dino 7 Cordas, que passa por Baden, o telecoteco do tamborim para as cordas do violão.

Como se fosse a porta-bandeira, a divisão silábica de Gil, uma mistura de bebop com embolada faz piruetas desvairadas sobre o baticum da banda.

O ponto alto de Chiclete, um dos melhores, se não o melhor disco de Gil, é certamente a faixa-título. Feita como um protesto aos desaparecimentos de brasileiros durante a ditadura, a letra brinca que o expresso 2222 parte da Central do Brasil para um "depois" que ninguém sabe de certo onde fica.

Junto à brilhante Oriente, é mais uma aula de voz e violão de tremenda influência nos violonistas brasileiros desde então (a levada de Linha de Passe, de João Bosco, por exemplo, é totalmente baseada no baião cutucado que Gil desfere nos primeiros compassos).

O adeus de Expresso 2222 é dado com o samba Cada Macaco no Seu Galho, do compositor baiano Riachão, em que Gil faz mais uma referência às suas raizes, vistas aqui pelo caleidoscópio de influências tropicalistas.

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