Expressiva e, acima de tudo, feminina

Se você quiser saber para onde vai a arte, observe os leilões, escreveu Souren Melikian no International Herald Tribune sobre dois recentes pregões da Christie"s e Sotheby"s. Melikian é o decano dos jornalistas especializados em leilões de arte, dos poucos capazes de dizer quanto alguém deve ter pago por um Picasso há 50 anos embora, como todos nós, não consiga prever quanto alguém pagará por esse mesmo Picasso daqui a 5.

TEIXEIRA COELHO, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

Os leilões de primavera das duas casas tradicionalmente se dedicam à arte "impressionista e moderna", que costumavam ser uma só, mas os leiloeiros têm suas insondáveis razões. Melikian notou, porém, que de impressionismo não tinham nada. Lá estavam um Munch expressionista e um Matisse de fortes tintas fauvistas ao lado de um Braque no fim da vida reconvertido às origens igualmente fauvistas; um Picasso incisivo, um Dalí de 1935, auge surrealista, e um Giacometti bem típico em sua estranheza (La Main, braço delgado que termina em mão espalmada e mais nada) de 1948 e que foi talvez a peça de preço mais surpreendente: quase US$ 26 mi, 50% a mais que o previsto.

A conclusão de Melikian é precisa: não havia, nesses leilões, nenhuma obra feita de nuances. Tudo era nítido e bem recortado. A carta vencedora, dizia o título do artigo, foi a da Expressividade. A da arte expressiva. Pensei em Maria Martins.

Melikian não usou o termo expressionista, nem surrealista: arte expressiva. Bom nome. Claro que aponta de imediato para uma arte não expressiva e em outra que seria, ou é, inexpressiva. Se o fizer, é legítimo: o mundo das artes está cheio de ambas.

Não quer dizer que ele tenha razão ao sugerir que o futuro será da arte expressiva. Não dá nem para dizer o que acontecerá com quem ou o quê. Esse Nu, Folhas Verdes e Busto, de Picasso, vendido agora por US$ 106 milhões, recorde em leilão, é o mesmo que custou, há 50 anos, na estimativa de Melikian, "apenas" US$ 100 mil e que em 1932, quando pintado, nada mais que uma fração disso. Quer dizer, se você olhar para a cena dos leilões, hoje, não conseguirá saber para onde vai a arte.

Mas, seria bom que se desse valor, outra vez, à arte expressiva. Como a de Maria Martins, a arte de Maria. Ela foi uma das e dos primeiros artistas a fazer arte brasileira de fato contemporânea, em sintonia com seu tempo. (O que possa ser "arte brasileira" é bem complicado. É a feita aqui, por brasileiro ou estrangeiro? Ou no exterior desde que por brasileiros? Fora das reduções dos manuais e cartilhas políticas, a arte nunca se deu bem com o tema das nacionalidades e dos nacionalismos.)

Uma peça como O Impossível estava sendo feita no mesmo instante em que o surrealismo alcançava o ápice no mundo. Não depois, como aconteceu com muita arte por aqui: enquanto. Alguns se deram conta disso à época. (Antonio Callado escreveu sobre ela numa revista de Londres, em 1943.) Mas Maria, até os anos 50, andou mais pelo exterior do que aqui e isso a deixou por um tempo em segundo plano na história local.

Não importa. Interessa é a força de arrasto de sua arte. Fico com uma única de suas obras, esse O Impossível na versão de 1940. Uma única obra boa justifica um artista? Sim. Ter na vida uma boa ideia já está bem. A maioria, lembrou Barthes, passa a vida inteira sem ter ideia alguma, boa ou ruim. Ter uma só, e boa, está mais que bom.

Numa obra como essa não há distância entre a artista e seu produto e entre uma e outro e o observador - que, aqui, não mais é observador porém sentidor. Maria é aquela obra e aquela obra sou eu. Não há programa amparando essa obra, programa que é o primeiro obstáculo ao crescimento do artista. Muita coisa em arte foi feita pelo artista a partir do lado de fora da obra porque sua adesão era, primeiro, a um programa (o cubismo, o surrealismo) e não à coisa em si - ao sentimento em si. À arte em si. Muita coisa ficou apenas no código, o que mais existe em arte. Não raro, arte é aquilo que mais está ausente da arte.

Atemporal. Nessa obra de Maria, pode haver um programa - mas isso não é o mais importante. É apenas veículo para a artista. Em cena não está a representação de algo mas parte da coisa em si. Uma parte da artista. E como a obra me arrasta para dentro dela, sou eu quem está ali. Eu sei, eu sinto o que ela está dizendo. E o que ela diz tem validade universal, atemporal. Não é só a impossibilidade da relação, de amor e ódio, entre homem e mulher: é a insociável sociabilidade de Kant, esse desejo invencível de estar com o outro ao mesmo tempo em que se sente a repulsa que o outro me causa, como admito quando deixo de me esconder atrás dos discursos politicamente corretos.

Não é usual encontrar isso na arte brasileira de seu tempo. A época estava voltada para coisas mais coletivas, mais dirigidas. Houve, então, belas obras de outro tipo. Mas, geralmente, para se ver de fora. O Impossível é para se ver de dentro, dele e de cada um. Como em Giacometti - cuja Mão saiu por US$ 25 milhões. Por quanto deveria sair uma Maria, hoje? E por quanto sai? A resposta está, em parte, no custo Brasil. Arte expressiva, a de Maria. Muito mais que expressionista, mais que surrealista. Arte expressiva, sem nuances: sem meias-tintas.

Arte de mulher, se disse, no sentido de que só uma mulher poderia fazer algo assim. (Como só uma mulher poderia fazer os filmes de Ana Carolina, a exemplo de Das Tripas Coração.) Claro, não basta ser mulher, é preciso ser uma mulher especial. Mulher que teve exposição em Nova York apresentada por Breton, que conviveu com Tanguy, Max Ernst, Duchamp, que comprou o Broadway Boogie Woogie de Mondrian para doá-lo ao MoMA... Mulher e tanto. Expressiva.

Espero que Melikian tenha razão, que se dê mais espaço à expressividade e assim se inclua o nome de Maria nas listas globais das artistas mulheres surrealistas, ou expressivas, nas quais ainda não aparece. Grande falha. Por ignorância ou preconceito.

TEIXEIRA COELHO É PROFESSOR DA ESCOLA DE COMUNICAÇÃO E ARTES DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E AUTOR DE HISTÓRIA NATURAL DA DITADURA (ILUMINURAS), ENTRE OUTROS LIVROS.

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