Exposição une artesanato da favela e moda do shopping

Peças de vestuário, mobiliários e objetos de design ganharão vida à partir de hoje ( 25/07) na Exposição Retalhar, no Centro de Educação em Moda do SENAC, em São Paulo. O inusitado é que todos os trabalhos expostos são fruto da parceria entre moradoras da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro e artistas plásticos, designes e estilistas renomados. Através da Coopa Roca (Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha Ltda - RJ), trinta mulheres transformam restos de tecidos, retalhos e papel em produtos para serem comercializados. Foi pensando em ampliar a gama de produtos que a arte-educadora, socióloga e curadora da exposição, Maria Tereza Leal, convidou dezesseis nomes do universo artístico para interpretar os trabalhos manuais destas artesãs. Entre eles estão o estilista Carlos Miele, da grife M. Officer, os artistas plásticos Tunga, Rubens Gerchman e Jorge Barrão, os arquitetos de interiores Caco Borges e Chico Gouveia, e os cenógrafos Gringo Cardia e Gilson Martins. "O resultado é uma exposição lúdica, que mistura linguagem brasileira e técnicas do design contemporâneo", antecipa Maria Tereza A exposição foi idealizada pela própria curadora em conjunto com Cláudio Magalhães, diretor do departamento de artes da PUC. Juntos, pensaram em ampliar as possibilidades de produtos para comercialização executados pelas artesãs e costureiras da Rocinha. Aos poucos, o projeto ganhou uma nova missão: aproximar profissionais conceituados com a estrutura da Cooperativa e gerar novas oportunidades. À partir daí a escolha dos convidados foi uma extensão da proposta da Coppa Roca. "Queríamos aproximar pessoas que direta ou indiretamente tivessem afinidade com o conceito e a proposta de produção da cooperativa; que é basicamente desenvolver e comercializar produtos artesanais", explica Maria Tereza. O designer e cenógrafo Luiz Stein, por exemplo, já havia trabalhado em parceria com a Coppa Roca por ocasião da turnê da cantora Fernanda Abreu, que convidou as artesãs para executar a cenografia do show. O artista plástico Tunga em um dos projetos da Unesco apoiou a Nova Geração da Coppa Rocca, adolescentes entre 14 e 21 anos, que também desenvolvem trabalhos manuais. Outros, como Miele ou Gerchman, apresentavam em seus trabalhos visões que convergiam para a o conceito da cooperativa. "Gerchman entre outros, tem uma produção voltada para a linguagem popular", afirma Maria Tereza. Capa para ver TV - Destas parcerias nasceram peças de design, poltronas e peças de roupas idealizadas à partir dos trabalhos das artesãs. São cinco as técnicas utilizadas na elaboração de produtos: crochê, patchwork, fuxico, nozinho e reciclagem de papel. Carlos Miéle, que no último Morumbi Fashion Brasil apresentou peças em jeans executadas pelas artesãs, criou uma instalação de roupas intitulada Memórias: um vestido em patchwork junto com um terno queimado, representando uma crítica aos 500 anos da elite brasileira. Gerchman desenvolveu à partir da técnica do patchwork nove bandeiras de 3 metros de comprimento. Já Jorge Barrão cria uma nova linguagem para os eletrodomésticos e mostra uma inusitada capa para assistir à TV, desenvolvida à partir da técnica do crochê em seda. Tunga propõe O Eterno Retorno, uma instalação criada com refugo de linho. Segundo Maria Tereza, um trabalho que nos remete ao universo feminino e à postura da mulher produtora de artesanato: concentrada e silenciosa. Entre outros trabalhos que estarão na exposição há uma chaise de fuxico com forro de veludo preto de Chicô Gouveia, uma poltrona e um puff em nozinho intitulados Ginger por Fernado Jaeger e uma instalação de bolsas também de nozinho criada pelo designer Gilson Martins. Todos os trabalhos foram criados com material reciclado e desenvolvidos por vinte artesãs além de trinta jovens adolescentes que fazem parte da Nova Geração Coopa Roca. A Nova Geração compreende adolescentes entre 14 e 21 anos, que acabaram por introduzir uma nova técnica artesanal: a reciclagem de papel através da produção de contas. "São como colares de papel", conta Maria Tereza. A Coppa Roca nasceu em 1982, quando informalmente mães de crianças da favela da Rocinha iniciaram um trabalho elaborado com retalhos e refugos de tecidos de indústrias têxteis do Rio de Janeiro. Em 1987, a produção da Cooperativa foi legalizada e não parou mais. Hoje, além de desenvolver produtos para comercialização, as artesãs estão participando de um intercâmbio com os monitores do Moda na Comunidade. O projeto é uma iniciativa do Centro de Educação em Moda do Senac - SP e do Centro de Educação Comunitária para o Trabalho, que visa o aperfeiçoamento de técnicas de costura e modelagem desenvolvidas por comunidades de baixa renda na Grande São Paulo. Segundo Maria Tereza, a exposição consegue mesclar o popular e o contemporâneo. "A mostra surpeendeu até a mim", comenta ela. O Retalhar já gerou frutos para a Coopa Roca. Pela primeira vez, a cooperativa irá gerar uma produção sistematizada e com planejamento, que à partir de setembro será comercializada nas lojas da grige M. Officer. A exposição também pretende cruzar o oceano no segundo semestre.Serviço - Exposição Retalhar. De 25/07 a 12/08 no Centro de Educação em Moda do Senac-SP. Rua Faustolo, 1347 , Lapa, São Paulo. Tel.: (11) 3865-4888. Entrada Franca.

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