Exposição traz fotos célebres de Mario Testino a São Paulo

Fotógrafo, apaixonado confesso pelo Brasil, fala sobre o ofício, sobre moda e sobre Gisele Bündchen

Entrevista com

Mario Testino

Helena Tarozzo, Maria Rita Alonso - Especial para o Estado de S. Paulo, O Estado de S. Paulo

10 de agosto de 2014 | 07h00

A primeira vez que o peruano Mario Testino fotografou Kate Moss para uma revista francesa ele a viu chorar. Kate estava no início da carreira, em uma era dominada por supermodelos – nos anos 1990, Cindy Crawford, Linda Evangelista e Claudia Schiffer formavam um time realmente intimidador. “Ela era uma menina e me disse que estava se sentindo pequena, deslocada”, lembra ele. “Mas eu não duvidei nem por um minuto de sua força. Ela sempre foi frágil, rebelde, instigante e, sem dúvida, me ajudou a conceber a estética da minha fotografia.”

Colaborador assíduo das maiores revistas de moda do mundo, fotógrafo oficial da família real britânica, preferido dos astros de Hollywood, Testino faz parte da concepção da imagem da mulher contemporânea e de seu ideal de beleza. Kate Moss foi um de seus pontos de partida. Gisele Bündchen veio em seguida e teve a carreira impulsionada por ele.

A partir do dia 29, parte de sua obra estará à mostra no Museu de Arte Brasileira, da Faap, na exposição In Your Face. São 122 fotos, entre elas parte significativa de cliques que fez para revistas como Vogue America, Vogue Paris, Vanity Fair, V Magazine e campanhas publicitárias de grifes como Burberry, Versace e Gucci. A mostra chega a São Paulo, após passar pelo Museum of Fine Arts de Boston, e no Malba, em Buenos Aires, atraindo, respectivamente, um público de 180 mil e 120 mil pessoas.

Amante declarado do Brasil, Testino viveu anos de sua juventude no Rio (que ele diz terem sido os melhores de sua vida). Durante a entrevista exclusiva ao Estado, por telefone, de Los Angeles – que fez questão de dar em português –, ele fala sobre a intersecção entre o mundo da moda e o da arte, a manipulação digital na fotografia e a força das redes sociais. Diz também que vem para São Paulo, durante a abertura da mostra, e que está ansioso. “Sou enamorado pelo Brasil e, quando estou aí sinto, que esse amor é recíproco.”

Qual foi o critério de escolha para as imagens da exposição?

O nome da mostra é In Your Face, porque escolhi imagens que são óbvias, diretas e que estão ‘na cara’. Normalmente, os fotógrafos ficam presos em uma imagem que eles fazem deles mesmos. Tenho muita curiosidade por coisas diferentes, então tentei mostrar vários aspectos do meu trabalho. Fui muito ao Brasil, depois morei na América do Norte, em Londres e trabalhei em Paris e na Itália e a mostra traz o meu olhar sobre esses lugares e sobre toda a sensualidade, a elegância e o humor que encontrei neles.

Acredita que a imagem de moda tenha legitimidade artística?

A vida de uma foto de moda, às vezes, é limitada ao tempo em que a revista está na banca. A vida de uma foto na parede é muito diferente, ela precisa ter significado. Durante a minha primeira exposição em Londres, na National Portrait Gallery, o diretor de lá me disse algo interessante: se a fotografia de moda tem um cunho comercial, a maioria dos retratos históricos também tem, porque, de uma forma ou de outra, eles foram pagos para serem feitos. No fundo, eu acho que tudo depende da liberdade que as pessoas têm para se expressar.

O uso da manipulação digital na fotografia vem sendo bastante questionada especialmente porque ela imprime um padrão de beleza feminina irreal. Na sua opinião, o Photoshop ajuda ou atrapalha a moda?

Tudo o que ajuda alguém a concretizar algo criativo é válido. As pessoas ficaram muito fixadas na ideia de que manipular imagens é ruim, mas a minha realidade é outra. Para mim, antes tínhamos poucas ferramentas ao alcance, era aquilo que a gente podia fazer com aquele equipamento analógico e pronto. Hoje, com Photoshop e a Internet, há outras mil possibilidades no pós-tratamento, é possível criar mais coisas. Algumas dão certo e ficam boas e outras não dão e parecem forçadas.

Sua conta no Instagram já tem mais 500 mil seguidores. O que acha de poder divulgar suas fotos numa rede social?

Estou gostando muito do Instagram, porque trabalhei anos por meio de outros veículos, ou era o Mario Testino para a Vogue, ou para Burberry, para Versace e agora tenho um meio onde posso expressar minha criatividade, minhas ideias e sou eu quem decide se vai ser publicado ou não. Antigamente, um fotógrafo dependia da palavra final de um editor.

Você foi um dos primeiros fotógrafos que apostou na Gisele Bündchen e ajudou a carreira dela decolar. Naquele momento, imaginava o que ela se tornaria?

Apostei na Gisele, mas ela já estava sendo bem vista na moda. E ela me ajudou muito também. Quando a vi pela primeira vez, logo percebi que ela tinha uma luz diferente. Foi como se eu tivesse voltado aos meus melhores dias no Rio, porque ela, como boa brasileira, tem a capacidade de parecer a pessoa mais feliz da festa, o que dá vontade de estar sempre ao seu lado. Nela consegui vislumbrar uma estética que estava buscando.

Kate Moss também é uma de suas musas, não?

No dia em que conheci Kate, a vi chorar. Estávamos em uma sessão de fotos de uma revista francesa, ela era novinha e estava sozinha em um canto e, então, fui até ela e perguntei por que ela estava triste. Ela me disse que estava se sentindo pequena, deslocada, as roupas não serviam direito. Mas eu não duvidei nem por um minuto de sua força. Disse a ela que existem as colônias, que são grandes e não duram nada na pele, e os perfumes que são marcantes e duram mais. Ela é um perfume. Sempre foi frágil, rebelde, instigante e, sem dúvida, me ajudou a conceber a estética da minha fotografia.

EXPOSIÇÃO IN YOUR FACE, POR MARIO TESTINO

Faap. R. Alagoas, 903, 3662-7198. 3ª a 6ª, 10h/21h; sáb. e dom., 13h/18h. Grátis. De 29/8 a 12/10.

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