Exposição traz a natureza-morta de Giorgio Morandi

Um pintor figurativo capaz de influenciar toda uma geraçãode pintores abstratos sem nunca ter abandonado os objetos de suaadoração parece algo improvável como um ateu ajoelhado diante daimagem de um santo. Mas ele existiu. Giorgio Morandi era seunome. O pintor italiano, morto em 1964, está sendo homenageadocom uma exposição que reúne não só algumas de suas melhoresobras como pinturas, desenhos e mosaicos de seus contemporâneos. Giorgio Morandi e a Natureza-Morta na Itália, a mostraque será aberta nesta quinta-feira, para convidados, na Estação Pinacoteca,revela como sua influência marcou profundamente os pintores desua geração (e as outras que viriam). E, em especial, atesta amaestria de Morandi no gênero natureza-morta, uma das razões detodo o barulho que se faz quando se fala das silenciosaspinturas do artista de Bolonha.Artista expôs em duas Bienais de SP As melhores pinturas da mostra pertenceram aohistoriador Roberto Longhi (1890- 1970), um dos grandes críticositalianos ao lado de Giulio Carlo Argan (1909-1992). Longhi foicolecionador e amigo de pintores como Morandi e Carrà. Foigraças a ele que o Brasil acabou descobrindo sua arte. O críticoinsistiu que o pintor participasse da 4.ª Bienal de São Paulo, em1957, onde ganhou sala especial, garantindo a Morandi o prêmiode pintura na mostra internacional. Ele, que havia participadoda primeira edição (1951), esteve também presente com cincoobras na 2.ª Bienal (em 1953), levando para casa o prêmio degravura. Morandi e a Natureza-Morta na Itália apresenta ainda umaseleção (um tanto irregular) de 24 obras de outros 14 artistasque Longhi ajudou a divulgar. Com curadoria do crítico RenatoMiracco e de Maria Cristina Bandera, diretora da Fundação deEstudos da História da Arte Roberto Longhi, de Florença, aexposição traz oito obras fundamentais na trajetória de Morandi,pertencentes à fundação e a colecionadores particulares. Além delas, exibe 24 outros trabalhos assinados porcontemporâneos seus que se dedicaram ao tema da natureza-morta:De Chirico, Severini, Carrà, De Pisis, Manzù, Semeghini eCesetti, entre outros. Diálogo com Morandi A associação já foi tentada há dez anos aqui mesmo, sóque com artistas brasileiros, na exposição Morandi no Brasil,realizada no Centro Cultural São Paulo. Nela, reuniram-seartistas que, marcados pela obra de Morandi, dialogaram com elatrabalhando em registro similar: Iberê Camargo, Milton Dacosta,Amilcar de Castro, Eduardo Sued, Paulo Pasta e Tunga, entreoutros. Os discípulos tardios fora daqui são inúmeros e, paracitar apenas um pintor que ainda deve muito às descobertas deMorandi, Sean Scully parece o exemplo mais acertado. Ocontemporâneo irlandês faz pela faixas o que Morandi fez pelasgarrafas, transportando-as para um mundo emudecido, fora darealidade circundante. Scully é um abstrato com um pé no real. Não tem pudor derevelar suas fontes (janelas e portas). Morandi , antecipandoScully, busca um momento quase hierofânico em objetos banaiscomo garrafas, vasos e candeeiros, o momento em que revelam suaexistência, ou ganham "vida própria", para usar uma expressão docurador Miracco. O crítico resiste a chamar de naturezas-mortasessas composições de Morandi, preferindo denominá-las"mortas-vivas". Com justa razão. O existencialismo de Morandi sedefine na mesma relação do ateu do início deste texto: suacrença neoplatônica nos objetos é principalmente a fé nasobrevida dessas garrafas como signos de uma vitória sobre amorte.Morandi pintou mais de mil telas Entretanto, como observou Michela Scolaro, curadora deoutra mostra de Morandi (no Masp, em 1997), os protagonistasdessas obras não são elementos metafísicos, mas perfeitamentereconhecíveis, "sem quaisquer inclinações à simbologia". Scolaroreitera a posição de Argan. Este jurava que Morandi ria quandoalguém falava do seu "amor" por esses objetos. Ele não os amava,absolutamente, defendia o crítico. Retirava deles seu caráterpoético para fazer de bules, xícaras, lamparinas, vasinhos egarrafas entidades a que se pudesse agregar um valor ético. Morandi pintou mais de mil telas e atravessou os 50 anosmais dinâmicos da arte do século 20, lembra o curador da mostra,"sem se deslumbrar com as vanguardas". Fiel a seus princípios,colecionava esses objetos humildes e inúteis em seu quartinhopara que fossem testemunho de uma melancolia doméstica queconduz ao confronto com o real. É nesse processo do conhecimentoda realidade que Morandi arma o cenário de sua peça metafísica.Nela, os protagonistas saem do cotidiano para entrar na históriarumo à essência das coisas. Giorgio Morandi e a Natureza-Morta na Itália.Estação Pinacoteca. Largo General Osório, 66, 3337-0185. 3.ª adom., 10 h às 18 h. R$ 4 (sáb. grátis). Até 10/9

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