Exposição sobre raízes negras abre amanhã no Sesi

A exposição ?Negras Memórias, Memórias de Negros - O Imaginário Luso-Afro-Brasileiro e a Herança da Escravidão?, que será inaugurada amanhã à noite na Galeria do Sesi, é ao mesmo tempo um exercício de denúncia e reverência. Contém uma crítica profunda em relação aos horrores do nosso passado escravocrata e nosso presente racista, ainda discriminador. E nos deslumbra com elementos de uma rica cultura, que está na base da formação da nação brasileira. Partindo de mais de 500 obras originais ou reproduções de importantes trabalhos artísticos realizados em solo brasileiro, o curador Emanoel Araújo nos faz passear pelos meandros dessa história obscura, ao mesmo tempo terrível e fascinante. A montagem é tão complexa e tortuosa quanto o objeto de estudo, cheia de pequenos diálogos, metáforas e leituras poéticas. As gravuras de Debret e Rugendas registrando - e denunciando - as condições de vida dos escravos em terras brasileiras - se misturam a uma seleção muito interessante de textos sobre o mesmo período, assinados por gente lúcida como Raul Bopp. É dele, por exemplo, um trecho que fala muito mais do que várias imagens sobre a concentração do poder na mão de poucos. "Vamos brincar de Brasil? Mas sou em quem manda", resume ele. Lá estão representadas a riqueza criativa de mestres como Aleijadinho e Mestre Valentim; o diálogo entre arte e candomblé nas obras de criadores das mais diferentes estirpes, como Mario Cravo Neto e Mestre Didi; o diálogo nem sempre evidente com o poderio do império - cujo interesse comercial no tráfico de escravos fica totalmente explícito nas palavras de religiosos como Padre Vieira; a arte popular e sem rosto dos ex-votos; e, de maneira quase constante, a profunda relação entre a cultura visual e poética da África e do Brasil. Há também um segundo núcleo mais alegórico e cronológico, uma espécie de corredor de ilustres, na qual são lembrados artistas e homens de cultura negros e mulatos que ajudaram a construir o País, assim como uma lista não menos importante de pessoas que ajudaram a registrar esse tortuoso processo. Assim podemos ver lado a lado as pinturas dos irmãos Timóteo da Costa, imagens de José do Patrocínio, Machado de Assis e fotografias realizadas por Madalena Schwartz. Essa longa lista termina com uma reprodução de uma tela de Antonio Parreras, na qual é retratado Zumbi dos Palmares.Objetivos sociaisMas todas essas inferências paralelas levam a um mesmo ponto: a necessidade de mostrar a violência da instituição da escravidão, cujos rastros estão aí até hoje. "Essa gente foi trazida para gerar riqueza e foi esquecida", afirma o curador, Emanoel Araújo. Essa não é a primeira vez que ele se debruça sobre essa questão. Há duas décadas realizou a primeira incursão no tema, com ?A Mão Afro-Brasileira?. De lá para cá foram várias as tentativas de ajudar a compreender - e mudar - essa situação injusta, intrincada e dolorosa. Há dois anos foi organizada no Rio uma primeira versão da mostra que será aberta amanhã (assim como um alentado catálogo, intitulado ?Para nunca Esquecer?). A versão paulistana tornou-se mais didática, sofisticando o enfoque e englobando também uma discussão sobre as origens lusitanas de nossa cultura miscigenada.

Agencia Estado,

23 de fevereiro de 2003 | 11h08

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