Exposição reúne desenhos de Jorge Guinle

A carreira de Jorge Guinle (1947-1987) foi curtíssima, mas fulgurante. Entre sua primeira mostra individual, realizada em 1980 na galeria carioca Ana Maria Niemeyer, e sua morte prematura transcorreram apenas sete anos de produção intensa e acelerado amadurecimento artístico, cujo resultado infelizmente pôde ser pouco admirado pelo público tornando a exposição de desenhos que será aberta nesta terça-feira, no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, uma boa oportunidade de conhecer um pouco melhor o trabalho de um dos grandes nomes da nossa pintura.Não se trata de uma mostra de caráter retrospectivo, nem de uma seleção de obras já conhecidas (não haverá na galeria nenhuma das gigantescas e coloridas pinturas normalmente associadas a ele). Mas sim de um mergulho numa arte mais delicada e intimista que, segundo o marchand e responsável pela exposição, Marco Mello, não apenas revela um artista diversificado, capaz de exprimir-se de forma intensa, usando técnicas absolutamente distintas, como antecipam as soluções plásticas que posteriormente encontrará nas telas.Para selecionar as cerca de 60 obras reunidas na exposição - que mostrou em primeira em sua galeria Casa da Imagem, em Curitiba - Mello teve acesso a uma enorme quantidade de trabalhos deixados pelo artista, a maioria em poder de seu companheiro, o fotógrafo Marco Rodrigues, que colaborou intensamente com o trabalho de pesquisa. Foram escolhidas obras realizadas entre 1976 e 1986, um ano antes de sua morte. Além da qualidade e das condições das obras (todas passaram por um trabalho de restauro), houve a preocupação em montar um conjunto de grande diversidade temática e técnica."As pessoas se referem muitas vezes a Guinle como uma promessa, o que não é verdade. Ele realiza exatamente o projeto da arte", afirma Mello, que considera Guinle o grande nome de sua geração. Uma das características marcantes do artista é sua impressionante intimidade com a história da arte. Filho do playboy Jorginho Guinle (que, certa vez, afirmou ser sua rosa e sua cruz), ele nasceu e morreu em Nova York, morou muito tempo em Paris e sempre viveu imerso em museus. Mas escolheu ser pintor no Brasil.Como escreve Ronaldo Brito no alentado catálogo da exposição, nesses trabalhos se misturam história da arte e biografia pessoal. A encantadora maneira com que trabalha as cores permanece, mas a intensidade, o peso da matéria dão lugar a uma maior delicadeza, às vezes marcada por um forte erotismo, às vezes fazendo referências explícitas a mestres como Cézanne, outras deixando fluir livremente o lápis ou o pincel.Matisse é uma presença quase constante quando se fala de Guinle. Segundo Brito, é ele quem o socorre da apatia e confusão da era pós-moderna. Convém esclarecer, no entanto, que a relação de Guinle com a história da arte não é feita a partir de citações - como as usadas recorremente pela geração dos 90 -, mas de maniera sutil e poética.Situando-se num tênue limite, que às vezes pende para o lado da figuração e outras adere a um abstracionismo mais impulsivo e violento, esses desenhos de Guinle mantêm uma impressionante elegância e um certo lirismo. "É impressionante ver como a linha escorre, caminha pelo papel", ressalta Mello.Outra característica interessante mencionada por ele é sua capacidade de ampliar a ressonância de trabalhos muitas vezes diminutos, fazendo com que eles cresçam, se impondo de maneira vigorosa no espaço.Após São Paulo, a exposição segue para o Rio, Belo Horizonte e Brasília. Celebrando a descoberta dos desenhos de Guinle, Mello tem planos de divulgar outros artistas importantes do cenário nacional. "É terrível imaginar que há grandes tesouros como esse guardados, mas, por outro lado, é sinal de que ainda há muito a descobrir", afirma o marchand, acrescentando que os galeristas normalmente estão muito preocupados em descobrir artistas jovens, quando na verdade o que é importante é descobrir a arte, trazer coisas boas à tona.Jorge Guinle - De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 14 horas. Gabinete de Arte Raquel Arnaud. Rua Artur Azevedo, 401, tel. 3083-6322. Até 27/1. Abertura amanhã (12), às 20 horas.

Agencia Estado,

11 de dezembro de 2000 | 18h53

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