Exposição reúne 16 gravuras de Gilvan Samico em SP

"Está frio aí?", pergunta o artista Gilvan Samico, que chegaria nesta segunda-feira a São Paulo para inaugurar, na Galeria Estação, uma exposição de gravuras que fazem dele "o maior gravador brasileiro de todos os tempos", como não só define o escritor Ariano Suassuna, seu amigo de poética do Movimento Armorial. Samico, que acaba de completar 84 anos, está um pouco "amolecido", diz, com uma enfermidade que vem tratando - mas já no segundo minuto de conversa com ele por telefone, desde Olinda, onde vive, o artista começa a brincar, fala de forma generosa sobre sua vasta trajetória.

AE, Agência Estado

26 de junho de 2012 | 10h48

As xilogravuras de Samico são raras, não apenas pelo fato de o artista realizar somente uma obra - ou no máximo, duas - a cada ano. "O que faz da arte de Samico uma grande arte, elevada ao mais alto patamar da criação gráfica ou pictórica, é que a sua busca não se limita ao campo referente da literatura ou da arte erudita conhecida como tal, mas tem seu êxito na construção original de uma potente invenção que se abastece tanto de histórias ancestrais como da cultura popular", define o crítico Weydson Barros Leal num dos textos do livro "Samico" (Editora Bem-Te-Vi, 96 págs., R$ 190), que será lançado nesta terça, com a presença do gravador, na abertura de sua mostra na Galeria Estação.

A exposição reúne um conjunto de 16 gravuras, realizadas por Gilvan Samico entre a década de 1990 e os anos 2000. Tem ainda um diferencial, a exibição de duas matrizes de madeira entintadas (de duas xilogravuras com edições já esgotadas) criadas pelo artista, numa maneira de apresentar seu meticuloso ofício. "Não sei fazer nada com pressa. Quando vejo, o ano terminou. Na maioria das vezes faço uma gravura por ano, mas nesses últimos tempos, tenho feito duas. Não vê que estou ficando mais criança?", brinca Samico. "Se assim consigo dar a qualidade que quero, vamos nos conformar com isso. Tem gente que diz que sou preguiçoso: Sou devagar", ele continua. "Atualmente, estou trabalhando numa matriz, dessas que costumo fazer", conta Samico, que gostaria de gravar usando apenas a madeira pequiá-marfim. "Ela é clara e também dura, dá um bom corte. Mas não a tenho, entrou em extinção", diz. "Arranjei um substituto parecido, uma madeira que tem um nome popular aqui (no Nordeste), amarelo-cetim, como o tecido".

De seu sobrado na Rua São Bento, em Olinda, Samico vai sempre pedindo "perguntas fáceis" - e se recusa a ser chamado de "senhor". "Trabalho com duas possibilidades: a primeira, criar a partir de uma lenda ou algo que já li; a outra é a criação que independe disso, uma coisa mais pessoal", conta o artista. Histórias bíblicas, por exemplo, se misturam a referências ao Romanceiro Popular Nordestino que Suassuna indicou a ele no início da década de 1960 - o que seria o caminho de mistura do erudito com a cultura do povo, base do Movimento Armorial, na década de 70, liderado pelo escritor e do qual Samico foi "uma estrela de primeira grandeza". Mas a "coisa pessoal", afirma o gravador, "não vou a lugar algum buscar". "O título aparece depois da gravura pronta", diz - e muitos deles começam com a palavra Criação para depois serem acompanhados de um "subtítulo" explicativo. Sua obra é figurativa, uma espécie de construção a partir de uma "arquitetura dos sonhos ou uma semiologia do fantástico", define Weydson Barros Leal. É uma gravura que "incendeia a imaginação", afirma Suassuna no prefácio do livro Samico. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

SAMICO

Galeria Estação (Rua Ferreira de Araújo, 625). Tel. (011) 3813-7253. 2ª a 6ª, 11 h/19 h; sáb., 11 h/15 h. Grátis. Até 31/8. Abertura terça, 19 h, para convidados.

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