Exposição recria universo de Anita Malfatti

A exposição Uma Viagem comAnita, que será inaugurada neste sábado à noite na Faap, foipensada para o público infantil, mas promete seduzir filhos epais. Pode-se dizer que não é a mostra de uma artista, mas de umquadro, O Farol, escolhido a dedo para criar a sensaçãofísica de entrar literalmente numa pintura. No entanto, trata-sede uma oportunidade bastante rara de admirar a obra de AnitaMalfatti, mesmo que não se trate de uma retrospectiva e serestrinja a um conjunto relativamente enxuto de trabalhosproduzidos em sua fase áurea.Com um cuidadoso projeto cenográfico, que cria umpercurso lúdico e didático para apresentar a produção da artistaentre 1909 e 1923 por meio de 35 obras, a exposição tem porobjetivo central fazer com que o público atente para o processode construção de uma obra de arte. "Quis estudar esse momentode sua criação, que tem um vigor, uma pincelada e uma forçacapazes de ensinar uma série de coisas", explica a curadoraDenise Mattar, justificando o restrito intervalo de tempo e oreduzido número de obras selecionado. A idéia motriz desseprojeto era fazer algo voltado para a formação do público, algoque ajudasse a mobilizar o olhar diante de um quadro, queestimulasse as crianças a dedicar-se a encontrar o mistério quehá na pincelada, no jogo de cores, no desenho de uma obra..."Me veio na cabeça a cena de uma pessoa entrando num quadro.Mas qual seria ele? Imediatamente me veio O Farol, de Anita",explica a curadora.A cenógrafa belga, Isabelle van Oost, especializada emtrompe l´oeil e a quem coube a tarefa de reconstruir em trêsdimensões a movimentada paisagem de Anita, concorda que estatela tem tudo para mostrar a verdadeira pintura, ressaltando queela nem cai na obrigatoriedade de reproduzir a realidade doperíodo anterior à fotografia, nem cai no excessivo e frioformalismo da contemporaneidade.Infelizmente, ainda não é desta vez que as novasgerações poderão ver a obra da primeira artista modernabrasileira, que chocou o público e a crítica com a exposição querealizou em 1917 - e que é acusada de ter se intimidado peranteos ataques, simbolizados pelo virulento ataque de MonteiroLobato. Mas a seleção de trabalhos enfoca algumascaracterísticas centrais de sua produção. Na primeira sala, logoapós uma longa e detalhada cronologia da artista e de algunstextos contextualizando o modernismo e mostrando como era SãoPaulo no início do século passado, está uma série de desenhos egravuras da artista, reunida sob o título de A Festa daForma. Também há no espaço uma reconstituição de seu ateliê.Após esse passeio pelos seus vigorosos desenhos, e emque se destacam os traços angulosos e quase caricaturais, ovisitante literalmente entra no mundo da cor. Para entrar nasala da reconstituição de O Farol, passa-se antes por trêspequenos corredores nas três cores básicas: azul, vermelho eamarelo, uma idéia do cenógrafo Guilherme Isnard.Para chegar ao núcleo das pinturas a óleo, é necessáriocontornar as nuvens, casinhas e o próprio farol tomando umapassagem que fica invisível ao visitante. Além de duas obrasatípicas, de 1909 e 1910 - respectivamente O Burrinho e ORecanto -, que simbolizam a artista em sua juventude, antes dorumo expressionista tomado após sua estadia na Alemanha (entre1910 e 1914) -, a sala reúne uma série paisagens e retratos.Lá estão presentes várias das obras expostas tanto naantológica exposição de 1917 - como O Barco, a própria OFarol, e Lalive - quanto na Semana de 22: O Homem dasSete Cores, A Estudante Russa e A Onda (as duasúltimas também estiveram na de 17). Este segundo núcleo éintitulado A Festa da Cor.Encerrando a exposição, há um workshop dedicado àscrianças de mais de 10 anos - convém agendar com antecedência.Outra curiosidade que merece ser ressaltada, segundo DeniseMattar, é que Anita - ao contrário da imagem de infelicidade eabandono colada à ela em sua fase madura - desenvolveu umimportante trabalho de educação, sendo a primeira a introduzirnoções de arte-educação no Brasil. "Assim, me sinto como quedando uma continuidade ao seu trabalho", diz a curadora,lembrando que as crianças receberão telas e tintasconfeccionadas especialmente para exprimir suas própriasimpressões dessa viagem na companhia da Anita e registrarpoeticamente o que a artista definiu numa simples frase,escolhida como uma espécie de epígrafe da exposição: "Nadaneste mundo é incolor ou sem luz."Uma Viagem com Anita - A Festa da Forma e da Cor. Deterça a sexta, das 10 às 21 horas; sábado e domingo, das 13 às18 horas. Faap. Rua Alagoas, 903, tel. 3662-6242. Até 16/9. Abertura amanhã (11), às 16 horas, para convidados.

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