Exposição recorda o "Canto Geral" de Pablo Neruda

Hoje, mesmo dia em que Augusto Pinochet perdeu a imunidade parlamentar inaugura-se em Santiago do Chile uma exposição que recorda os 50 anos da primeira edição de Canto Geral, uma das obras mais fortemente políticas do poeta Pablo Neruda, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1971.A exposição de poesia, pintura e história da obra de Neruda realizada pela Casa Central da Universidade do Chile, foi aberta pelo presidente Ricardo Lagos apenas duas horas depois do anúncio da decisão da Corte Suprema que por 14 votos a seis retirou o direito à imunidade de Pinochet. Ao comentar a coincidência, os organizadores da mostra recordaram que Neruda morreu somente 12 dias após o golpe militar que levou Pinochet ao poder no dia 11 de setembro de 1973, vítima de um câncer que havia sido descoberto oito anos antes. Seus amigos mais íntimos, os únicos a quem o poeta permitiu aproximação antes de morrer, reiteraram que os acontecimentos militares apressaram a morte de Neruda. "Los están fusilando, los están fusilando", foram as últimas palavras do poeta antes de cair em profundo estado febril e delirante e morrer em uma clínica particular de Santiago. Ao inaugurar a exposição, o presidente Lagos disse que o Chile estava "rendendo uma homenagem a um de seus grandes poetas que amou esta terra e a deixou uma herança para toda humanidade". Segundo o presidente, no passado, o Chile foi conhecido mais por seus poetas do que por suas riquezas minerais. "Talvez a poesia de Neruda e de Gabriela Mistral seja nosso principal produto de exportação não-tradicional neste mundo onde só parece valer a economia", disse Lagos.Canto Geral é considerado um clássico da literatura hispano-americana, por refletir a geografia, a história e a cultura do continente. A primeira edição do livro foi publicada no México, no dia 3 de abril de 1950, com ilustrações de Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros. Pouco depois de Neruda deixar o Chile, perseguido pelo governo de Gabriel Gonzáles Videla, começou a circular no país uma edição clandestina impressa pelo Partido Comunista. A exposição está sendo organizada pela Universidade do Chile, Fundação Pablo Neruda, Museus de Arte Pré-colombino, Histórico Nacional e de Ciencias Naturais. Paralelamente, haverá uma mostra de cinema e um ciclo de conferências, da qual participam os principais nerudianos chilenos e alguns especialistas estrangeiros como Robert Pring-Mill, professor da Universidade de Oxford e Peter Kurman, presidente da Academia Sueca de Escritores e Artistas.

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