Exposição no Masp celebra o kitsch

Embora com sua barba opulenta o crítico de arte Olney Krüse possa ser um Papai Noel de primeira qualidade, a ele se colou um rótulo mais peculiar, o de "pai do kitsch". Ninguém cuidou mais do kitsch aqui do que Olney e ele mostra que manteve a chama acesa fazendo, juntamente com Eunice Moraes Sophia, a curadoria da exposição Viva o Kitsch, que tem abertura para convidados nesta quarta-feira, na Galeria Prestes Maia.Nesse cenário de mármore e linhas art déco, cerca de 1200 peças se dividem em dois salões. No primeiro, há recriação da exposição de 700 objetos kitsch feita em 1984 por Olney Krüse no Masp. Além de fotos da época, também haverá altares a ícones kitsch como James Dean, Elvis Presley e Marilyn Monroe, cheios de objetos dedicados a eles feitos em várias partes do mundo.No segundo salão, 500 novos objetos kitsch (que depois se juntarão ao acervo do Masp, integrado pelos 700 do outro salão) serão mostrados, com destaque para um vestido de Hebe Camargo, acompanhado por tudo a que se tem direito, dos sapatos de strass ao batom.O artista Carlos Miele também doará ao Masp uma obra inspirada no kitsch e feita especialmente para a exposição. Outro grande momento ocorrerá na abertura da mostra, em que haverá um grande desfile que lembrará as relações do Masp com a moda no Brasil. O museu tem um acervo de vestuário integrado, por exemplo, por um Dior desenhado por Salvador Dali e vestidos de vanguarda da década de 60.A palavra kitsch vem do alemão "kitschen", que se refere a fazer o novo com o velho, especialmente móveis, e nasceu por volta de 1860. "Verkitschen" é vender de segunda mão ou entregar algo no lugar do que fora pedido. A explicação mais específica seria usar a arte para dela fazer um produto de consumo para o grande público.Por extensão, kitsch se tornou um objeto, uma manifestação cultural ou uma pessoa de mau gosto. Contudo, esse é um jeito simplista de encarar o kitsch: ele não é sempre sinônimo de mau gosto. Que é uma noção subjetiva, flexível, ilusória, já que o gosto varia de acordo com a época e o lugar. No contexto da exposição da Galeria Prestes Maia, o kitsch pode ser visto como arte popular que tem apelo sentimental, poucas (ou nenhuma) pretensões artísticas. Seduz e repele por suas características obviamente falsas: materiais baratos que imitam prata, ouro ou pedras preciosas.Uma característica fundamental do kitsch é o humor. Que se liga a outra que é o excesso. Assim, uma caneca com a cara de Elvis Presley, revela um excesso de adoração por um cantor, que leva a se fazer um objeto de uso cotidiano como prova de idolatria a um astro, algo excessivo, sem dúvida. É kitsch e fica engraçado, exatamente por esse excesso que beira o absurdo.Aplicando-se isso ao erotismo, ao romantismo, à religião, à arte, surge o universo do kitsch, que se liga ainda a um toque de felicidade. O kitsch também pode ser uma reinterpretação do que é produzido pela grande arte e passou de moda ou estilo e passa a ser feito em cópia barata ou brega.As pessoas se sentem satisfeitas quando se deparam com o que é conhecido e reconhecido, seja onde for. Assim, a caneca de Elvis mostra um rosto reconhecido e idolatrado, não oferece o intrigante da arte não-kitsch, que desafia e incomoda.Exposição Viva o Kitsch - Masp Centro (Pça. do Patriarca - Galeria Prestes Maia). De 30/8 a 20/12, de 2ª a sábado, das 11 às 17h. R$ 4,00 e R$ 2,00 (estudantes e maiores de 60 anos).

Agencia Estado,

27 de agosto de 2001 | 09h48

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