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Exposição no MAM traz obras inéditas de Oswaldo Goeldi

Mostra do expressionista reúne 200 trabalhos que cobrem todas as fases do artista, morto em 1961

ANTONIO GONÇALVES FILHO - O Estado de S.Paulo,

14 de junho de 2012 | 03h09

O expressionista Oswaldo Goeldi (1895-1961) foi uma figura singular dentro do modernismo brasileiro. Voz solitária num ambiente solar, festivo e tropical que pregava a revolução estética caraíba, ele criou personagens soturnos, ilustrou livros de Dostoievski, retratou bêbados errando por ruas desertas, urubus farejando carcaças, cães magros e seres desamparados que seguram seus guarda-chuvas na escuridão, como náufragos no dilúvio universal. Curador da exposição Sombria Luz, que o Museu de Arte Moderna de São Paulo abre hoje, o crítico Paulo Venâncio Filho espera mesmo que a chuva e o nevoeiro que encobrem a cidade continuem para dar mais clima a essa mostra de 200 obras, entre gravuras originais e desenhos, produzidos entre 1920 e o ano da morte de Goeldi, 1961.

Para manter fidelidade ao universo sombrio do artista, tanto o curador como o arquiteto Felipe Tassara, responsável pelo projeto expográfico, transformaram a principal sala de exposições do MAM num labirinto de portas estreitas e becos. Pertinente. A rua de Goeldi, longe de representar um espaço público libertador, é quase o pátio de uma prisão oclusiva pela qual vagam solitários que têm como companhia cães vadios e a morte à espreita, com frequência representada por um esqueleto, à maneira do belga Ensor (1860-1949), cuja obra Goeldi deve ter conhecido quando voltou à Europa, em 1930.

Ele havia morado na Suíça entre 1905 e 1918, tendo realizado sua primeira exposição individual em Berna, em 1917. Foi por essa época que conheceu a obra do gravador expressionista austríaco Alfred Kubin (1877-1959). Numa carta, exposta na sala menor do MAM, que reconstitui o ateliê de Goeldi no Leblon, o artista conta que a ajuda de Kubin foi decisiva para que ele encontrasse seu caminho.

Goeldi não viveu o suficiente para atestar que também ele viria a ser uma referência marcante para a geração de artistas dos anos 1960. Lygia Pape é o nome que vem automaticamente à memória com seu filme O Guarda-Chuva Vermelho, inspirado numa das gravuras mais conhecidas do artista - e exposta logo à entrada da exposição.

A luz que vem das trevas

A mais antiga gravura da exposição Sombria Luz, no MAM, registra como data 1928, dois anos antes de Goeldi retornar ao território europeu com o dinheiro de seu álbum Dez Gravuras em Madeira, com prefácio do poeta Manuel Bandeira. Chama-se A Porta Estreita e, obviamente, deve fazer referência à porta bíblica por onde deverão passar poucos eleitos. Considerando o pessimismo goeldiano, a porta era mais do que estreita. A paisagem noturna de sua xilogravura é um purgatório para criaturas que vagam por ruas perigosas e mal iluminadas - em todos os sentidos, inclusive o religioso.

Goeldi, numa carta exposta na mostra paralela da sala pequena do MAM, faz uma referência a essa viagem pela Europa que, por certo, foi decisiva para que ele começasse a experimentar a cor, em 1937, ilustrando o modernista Cobra Norato, de Raul Bopp, conforme deixou registrado. Nessa mesma carta, de 1944, o artista, como se respondesse a historiadores de arte, afirma nunca ter cedido à tentação de seguir movimentos ou grupos. "Nunca sacrifiquei a qualquer modismo o meu próprio eu", escreve. E conclui ter sido uma caminhada dura, ressalvando que valeu o esforço, ao citar colecionadores estrangeiros de suas obras, entre os quais destacou a International Machines Corporation de Nova York e acervos particulares na Suíça e Áustria.

"Está mais do que na hora de Goeldi voltar a ser exibido lá fora", diz o curador Paulo Venâncio Filho, responsável pela pequena mostra de 22 gravuras que a embaixada do Brasil promoveu em abril do ano passado, em Londres. Goeldi, de fato, poderia ter feito uma carreira brilhante na Europa, onde teve aulas com o artista suíço Hermann Kümmerly, que se tornaria seu colecionador. Filho do naturalista e zoólogo suíço Emílio Goeldi (1859-1917), responsável pela transformação do Museu Paraense num centro de referência sobre a região amazônica, o artista, de temperamento boêmio, logo virou a ovelha negra da família, muitas vezes confundido com os personagens sem destino de suas gravuras, um sem-teto que eventualmente encontrou repouso num ateliê modesto da Rua Dom Pedrito (hoje Oswaldo Goeldi), no Leblon.

É esse ateliê que foi reconstituído na mostra paralela no mesmo MAM (sala Paulo Figueiredo). A sobrinha-neta do artista, Lani Goeldi, resgatou alguns desenhos feitos em Belém do Pará por Goeldi e uma série de gravuras com flores que ele produziu a pedido da editora Agir. Amigo de escritores, ele ilustrou livros de Graça Aranha (Canaã) e Jorge Amado (Mar Morto), entre outros brasileiros, mas foram as ilustrações feitas para as obras de Dostoievski (O Idiota, Recordações da Casa dos Mortos) que marcaram definitivamente sua linguagem artística. Há uma ou outra ilustração na exposição, mas o curador Paulo Venâncio Filho preferiu selecionar obras pouco vistas ou mesmo inéditas, nas mãos de colecionadores particulares há mais de 30 anos.

Ele evitou igualmente um percurso cronológico, agrupando conjuntos de gravuras e desenhos por afinidade temática. Assim, há uma sala com desenhos dos anos 1940 que fazem referência direta à guerra, mostrando paraquedistas descendo para a morte ou a própria figura da "indesejável das gentes" rondando o cenário de batalha. Outro conjunto expressivo é o das gravuras que retratam o cotidiano dos pescadores cariocas. O contraste entre as classes sociais foi um tema que Goeldi explorou de maneira até irônica, como acentua o curador, apontando para uma gravura que mostra dois esqueletos ensorianos vestidos em trajes de gala e despidos de pudor.

Os objetos recorrentes nas obras do artista - guarda-chuvas, armários abandonados pelas ruas - podem facilmente assumir uma dimensão simbólica. De maneira geral, os guarda-chuvas funcionam como elementos de proteção aos desamparados e os armários, como signos da privacidade exposta, traduzindo um comentário de Goeldi à promíscua invasão do espaço interno pelo externo na sociedade brasileira. "Talvez fosse uma maneira de mostrar a desorganização em que ela vive, a ponto de misturar vida privada e pública", complementa o curador.

Essa obras, lembra Venâncio Filho, viraram temas de reflexão de muitos artistas brasileiros contemporâneos, de Lygia Pape a Nuno Ramos, que reinterpretou uma gravura da primeira sala num de seus melhores trabalhos (Para Goeldi, de 1996). Na época, Nuno chamou a atenção para a potência dos objetos e seres abandonados nas gravuras de Goeldi, que, esquecidos, têm justamente a tarefa de lembrar aos brasileiros a natureza crepuscular dessa sociedade em que tudo se confunde, em que o abandono é permanente.

"A obra de Goeldi vai na contracorrente do modernismo, que viu o paraíso na luz tropical", observa o curador. "Com suas xilogravuras, ele mostrou que havia sombras sob essa luz solar, uma sociedade desequilibrada." Ao contrário da geração dos anos de chumbo, que recorreu a uma retórica menos sutil, Goeldi não precisou fazer discursos políticos para denunciar esse desajuste. Aníbal Machado disse que a experiência europeia de Goeldi não deixou que ele concluísse sua experiência brasileira, como se as sombras expressionistas perturbassem o gravador, a ponto de identificar objetos e pessoas num jogo surrealista em que ambos se equivalem. Às vezes ele é cômico, mas, de modo geral, termina trágico.

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