Exposição no Itáu Cultural discute a linguagem da arte

A narrativa pessoal, uma das questões mais largamente exploradas pela criação artística, é o tema central da exposição Primeira Pessoa, que será inaugurada na noite desta sexta-feira, no Itaú Cultural. Combinando diversas linguagens - artes visuais, teatro, dança, performance, cinema e até música -, a mostra não pretende traçar uma visão panorâmica nem didática da questão. A cada trabalho nos deparamos com uma maneira diversa e potente de trabalhar com a memória, com os registros da existência individual e coletiva, com as diferentes representações do passado e da presença espacial e temporal do criador. Trata-se de uma mostra concebida por vários idealizadores e que toma forma a partir da poética de uns 30 artistas ou grupos (sem contar aqueles representados em vídeo ou na mostra paralela de cinema), criando uma das mais enxutas exposições realizadas pela instituição até hoje. Na concepção mais geral estão os vários núcleos do próprio Itaú, os curadores Christine Greiner e Agnaldo Farias e o cenógrafo Valdy Lopes. Coube aos primeiros selecionar os nomes dos artistas que estariam representados na mostra e ao último criar uma certa unidade entre os vários participantes, dissipando um pouco as fronteiras entre os núcleos. Em vez de lotar os três andares expositivos do centro (aliás bastante problemático em sua disposição espacial), a opção foi por definir um número reduzido de participantes e dispô-los no espaço de maneira generosa e independente. Foram criados pequenos nichos, que permitem que as obras sejam apreendidas de maneira solitária, sem contaminações de um espaço para o outro. "Buscamos formas diferentes de contar essas narrativas, rastros, idéias", conta Valdy, acrescentando que o desenho corresponde à falta de linearidade e organização da memória. "A memória é algo truncado, não-linear", afirma Farias, que buscou compor uma seleção capaz de pontuar como são diversas as formas de lidar plasticamente com o tema. Dentre os 10 artistas escolhidos há desde as obras de Marcelo do Campo, artista e obras fictícias criadas por Dora Longo Bahia, até as representações mais oníricas e poéticas de Sandra Cinto e José Rufino. Rosana Ricalde lança mão de textos de autores conhecidos, como Cecília Meireles, e cria belos painéis monocromáticos de nomes os mais variados em fitas autocolantes. Cao Guimarães e Albano Afonso promovem contrastes e fusões de personalidades, Efrain Almeida e Daniel Acosta trabalham com lembranças afetivas, do passado. Radicalidade No caso da curadoria de Christine Greiner a questão da memória dá lugar a uma presença maior da investigação do corpo - algo difícil de escapar quando se trata de dança e teatro. "Não quis trabalhar com narrativas autobiográficas, mas buscar trabalhos que representassem uma maior radicalidade da linguagem", explica. Dois grupos, o Lume e o Teatro da Vertigem, estão representados por meio de duas instalações que remetem a questões essenciais de seus trabalhos como a idéia de deslocamento e contaminação. No caso do Vertigem, por exemplo, elementos das várias montagens do grupo estão dispostos numa grande sala, cujo chão está cheio de água (numa referência ao trabalho BR-3, realizado no Rio Tietê). O público poderá entrar no espaço usando botas de borracha. É curioso notar que coube aos dois grupos de teatro, mais do que aos artistas plásticos, o recurso à instalação (neste caso uma releitura espacial da poética que os caracteriza). Há também uma representação musical, também na forma de instalação, com seu chão de barro cheio de pegadas e uma noite estrelada, para abrigar 12 das 366 partituras criadas por Hermeto Paschoal em Calendário do Som. Assim, amplia-se um pouco mais o escopo da mostra, dilui-se o peso de artes plásticas e artes cênicas e diminui uma eventual divisão entre as abordagens adotadas pelos dois blocos principais. Primeira Pessoa. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, telefone 2168-1776. 3.ª a 6.ª, das 10 h às 21 h (sáb., dom. e feriado até 19 h). Até 28/1. Abertura hoje, às 19 h, para convidados

Agencia Estado,

10 Novembro 2006 | 16h41

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