Exposição na ABL homenageia Antonio Callado

A Academia Brasileira de Letras inaugura hoje a exposição Antonio Callado: o doce radical. Objetos pessoais do escritor niteroiense dividirão as vitrines da galeria Manuel Bandeira com souvenirs de viagens, correspondências e duas pinturas: um retrato de Antonio por Portinari, e outra de Djanira, sobre os intelectuais presos em 1964 após um protesto no Hotel Glória, entre os quais Antonio Callado. A maior parte do material, contudo, é de fotos e textos, divididos em 32 painéis, que lançam um olhar sobre a vida e as paixões do autor de Quarup. O ator Milton Gonçalves e Tessy Callado, filha de Antonio, farão uma leitura dramatizada de alguns textos do escritor.O nome da exposição alude a uma brincadeira. Segundo Hélio Pellegrino, Antonio Callado era tão forte na defesa de seus pontos de vista quanto delicado com aqueles que discordavam dele. Daí sua doce radicalidade. De fato, Callado passeou por toda sorte de grupos excluídos ou minoritários da história do Brasil, fossem índios, negros, camponeses ou revolucionários. "Ele era branco e urbano, mas traiu essas origens com determinação e amou os despossuídos e injustiçados", diz Ana Arruda, jornalista que viveu com Antonio por mais de vinte anos.Callado explorou vários domínios da palavra escrita, fazendo literatura, jornalismo, crítica, tradução e até magistério. Sua carreira de jornalista começou no Correio da Manhã, do qual saiu em 1941 para cobrir a segunda guerra mundial pela BBC, de Londres. Acabou casando-se e por lá ficando seis anos. O próprio Callado definia esse exílio como raiz de seu maior romance. "Foi me dando uma saudade do Brasil que, ao voltar, fui conhecer os índios e o interior. Esse amor pelo País desembocaria em Quarup", dizia.Viajante - Entre Amazônia e Xingu, ou Europa e Vietnã em guerras, Antonio Callado foi um viajante. Sua perpétua decisão em favor dos valores humanitários o levou para terras longínquas, como jornalista ou como homem preocupado com os destinos do mundo. A exposição da ABL traz a público objetos variados que Callado recolhia em suas viagens, como restos de aviões americanos abatidos na guerra do Vietnã, ou cadernetas de viagens que ele mantinha onde estivesse. Algumas delas foram base para futuros romances. Uma parte da exposição é dedicada a correspondências, e mostra cartas trocadas entre Callado e escritores e políticos, como Juscelino Kubitschek, Gabriel Garcia Marquez, Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar, que estava exilado quando se corresponderam. Há até uma carta em que o arquiteto Lúcio Costa explica o plano de Brasília com desenhos. Uma peça especial, cedida pela Fundação Parques e Jardins, chama a atenção. É um tronco de casuarina, árvore de regiões litorâneas que alastra suas raízes para muito longe do tronco. "Este tronco remete a toda a obra de Callado", diz a curadora Clarisse Fukelman. "Ele simboiza o Quarup indígena, mas também a busca por um centro para o País, uma peregrinação por justiça e igualdade."Antonio Callado: o doce radical - Academia Brasileira de Letras, Av. Presidente Wilson 203, Centro. De segunda à sexta, de 10h às 18h. Entrada franca.

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