Exposição mostra a arte da propaganda engajada

Uma exposição que pode ajudar a destrinchar as complicadas relações entre arte e propaganda, arte e política, arte e indústria, arte e publicidade, propaganda e publicidade.Gráfica Utópica - Arte Gráfica Russa 1904-1942, que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) abriu na quarta-feira, em Brasília, é também um desconcertante indício de que nosso desconhecimento da cultura russa é maior que supúnhamos. Inteiramente produzida pelo artista plástico e produtor Evandro Salles, de Brasília, a exposição chega ao CCBB de São Paulo no dia 5 de dezembro.São 150 originais de obras gráficas produzidas em cerca de 40 anos, abarcando do período pré-revolucionário ao realismo socialista de Stálin e ao conseqüente sepultamento da criatividade artística. A primeira pergunta que salta à consciência, quando visitamos a mostra, é: como eles preservaram com tanto zelo sua história?Os cartazes - muitos eram feitos para serem exibidos nas janelas da população - estão em ótimo estado e vêm de três museus: o antigo Museu da Revolução (atual Museu do Estado de História Contemporânea), o Museu Maiakovski e o Museu do Cinema. A arte propagandística russa teve algo que a distinguiu enormemente de outras propagandas políticas, como a hitlerista: foi integralmente produzida pelas vanguardas artísticas, construtivistas e suprematistas, que se engajaram num projeto utópico de mudar a sensibilidade do povo. Quatro deles se destacaram em especial: Malevich, Maiakovski, Rodchenko e Lissitsky, alguns dos maiores artistas do século."Os artistas da vanguarda russa acreditaram efetivamente que poderiam mudar a sensibilidade da população durante o processo revolucionário", afirma Evandro Salles, que levou um ano arquitetando a mostra. Ele teve a idéia durante uma visita a Moscou, no ano passado, impressionado que ficou com a cultura russa. Nos anos 20, Vladimir Maiakovski e Alexander Rodchenko chegaram a manter um estúdio de produção de peças de propaganda e publicidade propriamente dita. Adiantaram procedimentos, como a fotomontagem (na verdade, Lissitsky foi pioneiro na técnica), que se tornou comum na propaganda revolucionária.Maiakovski chegou mesmo a publicar um livro de poemas para a amada com ilustrações fotomontadas por Rodchenko. Isto, o tal livro, foi publicado em 1923. A exposição Gráfica Utópica trouxe nove pranchas originais desse livro de Maiakovski e Rodchenko. Mas a trajetória que talvez mais espanto cause ao visitante da mostra é a de Kazimir Malevich, artista-chave do suprematismo, da vanguarda abstrata. Ele começou a fazer ilustrações revolucionárias apropriando-se da narrativa folclórica tradicional (como os Luboks e as Rostas), mas inserindo nela um dado de erudição, despindo-a do didatismo.Malevich atravessou os 40 anos fiel à sua convicção pessoal, embora tenha sido obrigado a tornar-se, cada vez mais, realista - à medida que o stalinismo fincava suas unhas nos ideais revolucionários. Ao morrer, vítima de um câncer, em 1935, fez-se sepultar num caixão desenhado nos moldes suprematistas, uma construção geométrica que parecia dizer que levava seus ideais para o túmulo.O geometrismo influenciou barbaramente a produção realista, gerando grandes momentos artísticos. Há uma colagem de Lissitsky que é puro delírio: um círculo semi-aberto é "penetrado" por um triângulo vermelho. Ao lado, a inscrição: "Bata nos brancos com a cunha vermelha." Os brancos eram os mencheviques. Os vermelhos eram os bolcheviques. Havia também muito humor, muita ironia e causticidade, seja em propaganda ou publicidade. "Restou para nós, do Velho Mundo, só os cigarros Ira", diz texto de Maiakovski para anúncio de 1923.E delírio visionário. Um cartaz de propaganda de calçados mostra as galochas Prodnik em ilustração hiper-realista com o carimbo da fábrica na sola. Ao lado, a inscrição: "Galochas Prodnik, as melhores do mundo." Todo o procedimento da pop art americana, de Rauschenberg e Warhol, já estava representado ali.O curador Salles crê que a exposição dá uma lição extra, de ética, aos artistas contemporâneos. "A descrença absoluta em projetos políticos, a impossibilidade de idealizações comuns tornou o artista um viajante permanente entre dois mundos distintos: ou um exilado no seu limbo poético-formal ou um objeto estereotipado da cultura de espetáculo", afirma. "Essas duas posições são sustentadas indiferentemente pelo mesmo mercado e pelo mesmo circuito institucional que apresenta tanto um Richard Serra quanto um Jeff Koons como grandes artistas da época, ícones da cultura de consumo."

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