Exposição insere o cartum na arte brasileira

O livreiro e marchand Pedro Corrêa do Lago, curador da exposição Caricaturistas Brasileiros - aberta na quarta, no Instituto Cine Cultural de São Paulo - organizou a mostra com um objetivo bem claro em mente: o decontrapor-se à idéia de que a caricatura seja uma arte efêmera, circunstancial."Aceitar que uma caricatura de Di Cavalcanti seja arte é fácil, mas o oposto é bem mais difícil", ele diz. "Há uma certa resistência em relação a essa arte essencialmente plástica uma resistência que se manifesta também em termos de mercado",avalia. Sua preocupação com a mostra é possibilitar uma inserção da caricatura não só no contexto da imprensa, mas da história da arte brasileira.Das 140 obras que estão sendo exibidas no Instituto Cine Cultural (das quais 80% são originais), o difícil é dizer o que não é arte. "Eu escolhi 25 nomes do desenho de humor no Brasil, mas uma seleção dos maiores nomes", explica. Do pioneiro Araújo Porto-alegre (1806-1879) ao enfant terrible Angeli (já não tantoenfant...), ele passeia por uma amostragem peso pesado do cartum nacional."São artistas extraordinários, extremamente populares no seu tempo, mas marginalizados nas galerias e museus", pondera Corrêa do Lago. Segundo ele, o que mudou no cartum - dotempo da publicação do primeiro grande inventário do cartum nacional (o livro de Herman Lima, de 1963) aos dias de hoje - foi o surgimento de uma geração imensamente importante.E o principal pecado de Lima, na avaliação do curador, foi ter ignorado aquele que ele considera o maior expoente do humor no Brasil, Millôr Fernandes. "É o mais influente dasegunda metade do século no País", pondera. Na primeira metade, o mais célebre foi J. Carlos, que produziu em torno de 100 mil desenhos.Mas Corrêa do Lago prefere, pessoalmente, o paraguaio Guevara (1904-1964). Inicialmente influenciado por J. Carlos, ele acabou desenvolvendo um estilo próprio e influenciando opróprio mestre. "J. Carlos via seu desenho com uma função claramente utilitária", conceitua.Millôr Fernandes, parâmetro de uma geração, já publicou 5 mil páginas ilustradas na imprensa do País em 60 anos e continua na ativa. Além do cartum, é autor de mais de 50 livros,peças teatrais, traduções literárias e poesia.Outro excepcional artista do passado com obrasfundamentais na mostra é o português Bordalo Pinheiro (1846-1905). Quando viveu no Brasil, entre 1875 e 1879, Pinheiro exerceu grande impacto na obra dos jovens artistas nacionais esua influência se fez notar durante muitos anos.Para o jornalista e escritor Zuenir Ventura, a força da caricatura está no fato de que "é a arte de revelar não só a cara, mas também o caráter das pessoas". Lago concorda plenamente. "Quando uma charge é particularmente inspirada, temum peso extraordinário, fala mais do que mil palavras", diz.Além dos artistas de "cadeira cativa" do humor, aexposição apresenta algumas preciosidades especiais. Estão à mostra, por exemplo, seis obras de Di Cavalcanti, também adepto da caricatura. Entre esses trabalhos, está um desenho inédito do pintor com caricatura de Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Manuelito de Ornellas.Corrêa do Lago aproveitou a mostra para relançar,devidamente atualizado, seu livro Caricaturistas Brasileiros lançado no Natal de 1999. "Refiz para corrigir alguns errinhos e para ter um número maior de caricaturistas", ele diz.Ainda assim, o curador não avançou muito em direção aos cartunistas mais jovens, preferindo deter-se naqueles que são historicamente fundamentais. "Eu não vejo um nome tão fortesurgindo hoje em dia", ele avalia. "De qualquer modo, acho que um livro sobre os contemporâneos eu não teria capacidade de escrever."O fato é que os "clássicos" do livro e da exposição são também contemporâneos, como é o caso dos irmãos Caruso, Millôr, Angeli, Jaguar, Loredano e Claudius. "Meu livro não tem a pretensão de ser tão abrangente, mas ao separar os melhores, ele dá uma idéia mais clara da força da caricatura", afirma o autor. "Quando o leitor chegar à última página, vai estar sabendo o essencial."O autor, carioca, é representante da Sotheby´s no Brasil e colecionador. Cerca de 10% dos originais exibidos na mostra pertencem a ele. Foi curador do módulo O Olhar Distante, na Mostra do Redescobrimento.Caricaturistas Brasileiros. Curadoria PedroCorrêa do Lago. De terça a sexta, das 12 às 19 horas; sábado, das 10 às 17 horas. Instituto Cine Cultural. Avenida Rebouças, 3.507, tel. 3819-1666. Até 8/2.

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