Exposição homenageia indicados ao Multicultural Estadão

A exposição Território Expandido 3, uma iniciativa do Sesc, que será inaugurada nesta quarta-feira à noite no Sesc Pompéia, em paralelo à festa de entrega do Prêmio Multicultural 2001 Estadão Cultura,, vai bem além da homenagem aos indicados para a premiação. Além de promover um diálogo entre a vida e a obra dos selecionados, os 14 artistas foram escolhidos para participar porque mantêm estreita relação com os critérios temáticos estabelecidos pela curadoria.O suporte eletrônico, com predomínio da videoarte, dá a tônica do evento - que pela primeira vez estará fisicamente separado da festa de premiação. Em alguns casos, a imagem em movimento é associada a objetos de caráter simbólico, como no caso da obra de Patrício Farias em homenagem a Mãe Stella de Oxóssi - que usa um confessionário como suporte. Esse enfoque da arte eletrônica é o terceiro - e mais aprofundado - desdobramento de uma linha de pensamento iniciada com a primeira exposição da série, em 1999, derivada da teoria de território expandido defendida pela crítica norte-americana Rosalind Krauss.Mas só a abordagem tecnológica não justifica uma exposição. Pela primeira vez a mostra também tem um viés temático: a figura humana. "Vamos desde o princípio apolíneo do homem até a contemporaneidade", explica a curadora da mostra, Angélica de Moraes. No primeiro extremo está o trabalho de Alexander Pilis, uma projeção da escultura David, de Michelangelo, sobre uma fina e relativamente bruta placa de mármore. O trabalho de Pilis homenageia o escritor Milton Hatoum.Na outra ponta do que seria este eixo humanístico está a corrosiva obra de José Wagner Garcia, uma alegoria da depressão, da desesperança e da angústia do ser humano. Sua relação com Carlos Rocha, do Festival Internacional de Teatro (FIT), se dá provavelmente pela intensidade dramática da vídeoinstalação In Media Res.Aliás, convém ressaltar que, ao contrário dos anos anteriores, a atual edição da mostra não estabeleceu parcerias estritas entre artistas e homenageados, optando por uma aproximação por afinidade ou temas. Até porque, devido ao elevado custo e ao tempo de produção de uma obra eletrônica, seria inviável realizar uma obra específica para cada um dos indicados.Fantasmas - O drama do homem moderno, suas desesperanças e fantasmas, está presente em vários trabalhos da mostra. Ele constitui o núcleo de O Fracasso de Narciso, em que Elyeser Szturm recria alegoricamente o mito grego associando elementos banais como uma bacia a alta tecnologia visual (homenagem ao colecionador Gilberto Chateaubriand). O trabalho "fala da falência de nossas expectativas com respeito ao sucesso, fama, poder, sobre a matéria, sobre a sociedade, sobre as coisas e as máquinas. Somos todos, no fim das contas, Narcisos fracassados por maior que seja nosso sucesso", explica o artista, que vê no meio eletrônico uma maneira como outra qualquer de exprimir inquietações existenciais, comportamentais, artísticas e políticas, injetando instabilidades e expressando desejos.Na mesma categoria de mergulho ao lado negro ou terrível da vida humana, pode-se mencionar ainda as intervenções de duas duplas. Em Morte Lenta, Jurandir Müller e Kiko Goifman falam daquelas pessoas de um crime só, que de repente deixam transparecer seu lado mais negro. Já Maurício Dias e Walter Riedweg buscam humanizar um inferno criado pelo próprio homem. Question Marks foi desenvolvido com presos e busca investigar a "deformação da identidade dos indivíduos em confinamento". Não à toa esses dois trabalhos homenageiam os dois indicados mais intimamente ligados à questão da violência: João Moreira Salles e Drauzio Varella.Há também aquelas investigações mais relacionadas com a interface entre arte e ciência, propiciada pelo meio eletrônico. Entre elas convém mencionar a pesquisa do Grupo Infobodies, formado por sete pesquisadores, que homenageia outro grupo, o Árido Movie. Outras exploram o lado mais poético da vida, como Simone Michelin (que em Un Retard de Video remete à dança de Lia Rodrigues); Walter Silveira, que faz uma declaração de amor a São Paulo em O Quartinho (obra que relaciona com Tom Zé); Carlos Fadon Vicente, que recria um universo em constante mutação em complexos trabalhos de hipermídia (homenageando Sábato Magaldi) ou Ana Miguel, que na instalação Sexo, Violência & Arte trabalha numa tênue linha divisória entre a beleza e a perversão. São monstrengos extremamente familiares, que têm algo de sedutor e assustador ao mesmo tempo. "Como quase tudo em meu trabalho, está relacionado com a experiência psíquica da realidade, com a tentativa de capturar os desdobramentos dos sentidos mais familiares", explica ela, que faz sua homenagem a Hermano Vianna.Esse comentário resume, de certa forma, a maior proximidade entre a arte eletrônica e o mundo real, quebrando, segundo a curadora Angélica de Moraes, a tradição de uma arte extremamente intelectualizada, com poucos estímulos visuais, sem imagem e sem figuras humanas, como o discurso minimalista e conceitual iniciado na década de 70.Os outros artistas representados na mostra e seus respectivos homenageados são: Eder Santos (Tania Rösing), Jailton Moreira (Amir Haddad) e Ronaldo Kiel (Regina Meyer). Além da exposição, o Prêmio também estimula a produção plástica ao convidar um artista para produzir um troféu especial a cada ano. Desta vez a obra, uma escultura em bronze que se abre em outro trabalho, é assinada por Félix Bressan.

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