Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Exposição faz retrospectiva da carreira dos irmãos Campana

'Anticorpos' está em cartaz no CCBB de São Paulo

Olívio Tavares de Araújo,

27 de dezembro de 2011 | 21h30

Não há dúvida de que os irmãos Campana estão historicizados e nada abalará seu prestígio. Todas as instâncias nacionais e internacionais os consagraram. Sua exposição em São Paulo ocupa os quatro andares do Centro Cultural Banco do Brasil e vem sob a égide de um museu e um curador alemães. Daqui segue para a Argentina, Chile, Estados Unidos e Ásia. O mais recente livro sobre eles tem mais de 300 páginas e foi publicado pela Editora Rizzoli, com sedes em Nova York, Paris, Londres e Milão. Não importa.

De minha parte, estou convicto de que não se trata de bom design, e de que não sou o único a percebê-lo. Se não se costuma dizer isso de público é porque, compreensivelmente, as pessoas se deixam intimidar pelo discurso institucional. Como ir contra todos e tudo sem correr o risco de ser chamado de reacionário e/ou idiota? Indispor-se com o poder para ganhar o quê? Porém às vezes é preciso. O fato de que certos valores estejam sob ameaça mortal não significa que tenham deixado de existir, e uma parcela da humanidade ainda tenta entender o mundo à luz deles.

Entre os definidores da arte está a gratuidade, a inutilidade no mundo prático - que se contrapõe a sua necessidade absoluta no mundo do espírito. É tão inerente e essencial ao homem quanto o mito e a linguagem, e não há registro de cultura que não a tenha possuído. Mas exceto entre os povos ditos primitivos, para os quais exerce ao mesmo tempo função religiosa, a obra de arte foi sempre autotélica. Não enche barriga, não aquece contra o frio. Só serve para ser fruída, ouvida, contemplada, para causar-nos aquela experiência ímpar que exclusivamente ela - e nada mais no universo - consegue causar. Já o design, ao contrário, sempre pressupôs um uso, desde quando artesãos construíram o trono de Nabucodonosor ou os bancos da Catedral de Chartres. Com o nome atual, nasce na segunda revolução industrial e consiste num conjunto de operações para melhorar o aspecto, a utilizabilidade, o custo dos utensílios dos quais se serve a civilização em seu cotidiano: o barbeador, a locomotiva, o sofá. Funda-se em noções como conforto, praticidade, racionalidade, economia, progresso, que filosoficamente estão em baixa mas continuam em vigor na vida real. No design, assim como na arquitetura, forma e função são inseparáveis e se hibridam de maneira inelutável.

Isso não é uma lição acadêmica, e sim a conveniência de delimitar terreno recorrendo a um dos mais elementares instrumentos: o bom senso (que também está em baixa). Palavras devem fazer o mesmo sentido para quem quer entender-se. Claro, pode-se adotar a novilíngua e passar a chamar coelho de cartola. Mas esse é outro universo, do qual o presente texto não faz parte. Os irmãos Campana se propuseram ao mundo e foram por ele aprovados como designers, não como artistas. No início, um deles até queria ser escultor, o que contribui para explicar a ousadia de suas formas. E talvez seja pena que não se tenham decidido pela escultura. Exemplos de trabalhos livres de função utilitária - cenários para Pedro e o Lobo, de Prokofieff, em Nova York, figurinos para o balé de Marselha - parecem realizações interessantes. Contudo, do jeito como as coisas se passaram, quem lhes compra a preços caríssimos móveis, fruteiras, luminárias, sapatos, tudo fabricado por grandes firmas especializadas, supõe-se que não os pretenda colocar em casa como enfeite, e menos ainda como objetos de pura contemplação. Está pensando em usá-los.

Ora. Não é necessário nenhum outro sentido além do olhar para se dar conta de que a praticidade e o conforto jamais constituíram uma prioridade em tal produção. Vende-se nela o aspecto, a forma insólita da obra, e desconsidera-se a própria razão de ser do desenho industrial. Sendo assim, entende-se por que mais de um terço dos 400 e tantos projetos permanecem ainda peças únicas, não multiplicadas, e que a enorme maioria das edições já feitas consista em acessórios de pequena importância, não de peças de porte. Uma série de cadeiras projetadas nos anos 1980 recebeu dos próprios autores o título de Desconfortáveis e elas jamais foram editadas. São feitas de chapas de ferro com assento e encosto formando ângulos retos, certamente impraticáveis para mais de meia hora. O mesmo acontece com a série Linhas Suspensas, feita de vergalhões dobrados e também não editada. Sempre presentes nas exposições, o papel desses trabalhos aparentemente inovadores é, portanto, chamar a atenção, atrair pela esquisitice, criar uma caixa de ressonância e não exemplificar uma proposta real de design.

Antecipando-se à crítica da desfuncionalidade, exegetas pós-modernos já falam de ‘design pós-industrial’, e um deles escreve no livro da Rizzoli: "Na verdade, a utilidade passou a ser vista em certos círculos como uma pesada carga. (...) Agora a balança se inclina para entender design quase inteiramente como uma forma de autoexpressão, sem muitos dos grilhões que vêm da produção industrial". Tudo bem, é possível fabricar aviões que não saiam do chão, produzir garfos sem pontas, mesas sem tampos - metáforas muito expressivas, quem sabe, do sentimento de incompletude do designer -, e até construir prédios sem portas nem janelas. Sob pena de insensatez, entretanto, não poderemos considerar tudo isso natural, necessário, caminho para o futuro. Exceto na aparência exterior das obras, os irmãos Campana ou marcam passo ou andam para trás. Nenhuma delas apresenta qualquer melhoria ergonômica em relação ao que se fez ao longo do século 20, ou até lhe renega alguma conquista. Com sete bilhões habitando o planeta, deve haver quem esteja hoje produzindo 10 mil cadeiras por hora. Que a cadeira Vermelha só possa ser executada por um determinado artesão e lhe requeira 84 horas de trabalho é um capricho retrô para a sociedade afluente, possível porque haverá quem se disponha a pagar o custo resultante.

(Já referir-se à cadeira Favela como "um confronto com a história social" do Brasil - está no livro da Rizzoli - porque ela é feita de ripas e pedaços de madeira aleatoriamente colados e pregados, como um barraco de morro - é grave desinformação e insensibilidade. E quanto a considerar os Campanas "politicamente engajados" é alçar a novilíngua à sua instância mais absoluta. Um design engajado estaria preocupado em atender o maior número possível de usuários, não em exotizar e vender a visualidade da miséria.)

Talvez não seja possível definir cabalmente a beleza. No entanto sabemos, sem a menor hesitação, quando nos encontramos diante dela. Por mais inesperada, por mais estranha, por menos que compreendamos a linguagem em que está vazada.

Não há uma explicação racional - talvez possa haver, metafísica. Mesmo aqueles cujo repertório só chegou, digamos, até Debussy, pararão meio extasiados (e intrigados, por isso) ao ouvir pela primeira vez o Canticum Sacrum, de Igor Stravinsky, ou os Chants des Oiseaux Exotiques, de Olivier Messiaen. Do mesmo modo, horrorizados ou não, todos sabemos que nos filmes de Lars von Trier se apresenta a beleza em sua vertente terrível. A vivência simétrica também é verdadeira. De novo, basta apenas o olhar de uma sensibilidade algo treinada (que já escutou Mozart, leu Fernando Pessoa e viu imagens de quadros de Velázquez) para dar-se conta de que na obra dos Campanas é rara, escassa, a beleza. "Onde a maioria vê kitsch, os irmãos Campana veem potencial", escreve outro de seus exegetas. Incluo-me com convicção na maioria - mesmo porque "ver potencial" não quer dizer nada; pode dar certo, pode dar errado.

Kistch é um conceito complicado: por que Gaudí, por exemplo, não é kitsch - ou o é, e é belo assim mesmo? Tomado, porém, pelo valor de face mais corrente, aplica-se a boa parte do trabalho dos irmãos Campana, em especial às poltronas e sofás feitos de ursinhos de pelúcia e outros animaizinhos estofados, de bonecos do Mickey e bonecas de pano populares. Por que seriam melhores, enquanto arte/ou/design, do que bules em formato de elefante, que servissem o café através de suas trombas? Ou do que anões de jardim, ou pinguins de geladeira? Só porque são mais inéditos e custam infinitamente mais caro? É certo, por outro lado, que não se está cobrando, aqui, a beleza enquanto perfeição harmônica, luminosidade, medida, equilíbrio, valores clássicos lindamente resumidos por Winkelmann no século 18 ao tratar da arte grega: "Nobre simplicidade e silenciosa grandeza". O gótico e o barroco, na nossa própria cultura, e as artes negra e précolombiana, de que aprendemos a gostar, nos ensinaram que a beleza pode adquirir numerosas outras aparências. Depende de uma relação de essencialidade e eficácia entre a forma e o que a obra quer dizer, a Weltanschauung, a visão do mundo que nela se corporifica. Com cinco séculos de separação entre eles, não tenho nenhuma dúvida de que é belo o Retábulo de Isenheim, de Mathias Grünewald, assim como são belas as fotos de automutilação de Rudolph Schwarzkogler (cuja história e produção alucinadas se encontram na internet).

Também o design lega o testemunho de seu tempo. Qual será, um dia, a mensagem de época da obra dos Campanas? Certamente, a da radical confusão de valores. O pensamento pós-moderno consagrou a ininteligibilidade e o erro que pode-se esconder por trás dela. Ficou famosa, há alguns anos, a polêmica dos físicos Alan Sokal e Jean Bricmont com os filósofos franceses da moda, os quais, como eles demonstraram, não dominam os conhecimentos científicos de que fingem servir-se. Em arte, já nos acostumamos com tudo: insuportáveis níveis de redundância, magras ideias impostando-se como economia estilística, discursos que se substituem ao objeto e suprem o que neles não se consegue perceber - até porque, muitas vezes, não existe. Escaldadas pelas gafes do passado e inebriadas pelo vale-tudo, grandes instituições e a crítica militante tornaram-se adesistas. Endossam qualquer coisa, posto que é possível encontrar argumentos a favor de qualquer coisa.

Enquanto isso, a sociedade de consumo detém mecanismos de convencimento capazes de anular toda lucidez. Impinge o que quer. O novo-rico e certa classe média adoram comprar gato por lebre - desde que seja gato de grife, que eles se sintam enturmados e chamem a atenção. Que o digam os sapatos femininos atualmente em moda no Brasil.

ANTICORPOS

Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, telefone 3113-3651. 9 h/21 h (fecha 2ª). Grátis. Até 15/1

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