Exposição evoca tradição e transgressão dos ingleses

Os ponteiros do Big Ben giraram em direção contrária um do outro e uniram passado e presente em AngloMania: Tradition and Transgression in British Fashion, exposição aberta ontem no Metropolitan Museum de Nova York: lordes em calças de flanela risca de giz conversam com punks num gentlemen´s club, ladies do século 18 envergam chapéus da coleção primavera-verão 2000 de Philip Treacey, e a rainha Vitória, num de seus trajes de luto, se compadece de uma jovem viúva gótica, de vestido com corsete de espinha e costelas humanas de alumínio criados em 1998 por Shaun Leane e Alexander McQueen. AngloMania, que fica em cartaz até 4 de setembro, foi instalada nas galerias de cômodos e objetos de decoração ingleses de diversos períodos históricos que pertencem ao acervo do Metropolitan. Foram os cômodos e seus componentes que serviram de tema para as oito seções nas quais a exposição está dividida e em cada uma delas há uma relação explícita das roupas e dos elementos decorativos. Ao justapor móveis, pinturas e figurinos históricos com a moda do fim do século 20 e começo do 21, AngloMania examina ideais, estereótipos e representações da cultura britânica como classe, esporte, realeza e excentricidade. "A intenção não era fazer uma exposição de moda inglesa e sim revelar como algumas idéias sobre sua cultura informaram e inspiraram designers britânicos", explica Andrew Bolton, organizador da mostra e co-curador do Costume Institute, o departamento de moda do Metropolitan. Bolton concentrou-se em designers avant-garde como Hussein Chalayan, John Galliano, Stella McCartney, Alexander McQueen e Vivienne Westwood e focalizou a moda contemporânea inglesa criada a partir de 1976, o ano em que o punk ganhou força total na Inglaterra. "Mais do que qualquer outro estilo do século 20, o punk quebrou todas as regras e códigos do vestir. Seu impacto na moda ainda é sentido hoje e pode ser visto em todos os designers da exposição", justifica o curador. Esse impacto também chega aos ouvidos de quem vê a exposição escutando o audioguia que a acompanha. Nele John Rotten, vocalista do Sex Pistols, fala do seu grupo, da influência que este teve na moda (um tartã feito em 1976 por Vivienne Westwood para o próprio Rotten está entre as peças em exibição) que nasceu num período em que não havia "nenhum futuro no sonho da Inglaterra", como diz a letra de God Save the Queen, o segundo disco do Sex Pistols, lançado em 1977. Rotten recita a letra, declara-se um "monanarquista" e termina dando um beijo nos tímpanos do ouvinte. DiálogosReverência e irreverência se contrapõem desde a entrada das galerias, onde o brasão da Grã-Bretanha é ladeado por dois guardiães: o tradicional, numa plataforma feita de troncos de madeira presos por cordas, veste libré vermelha e perde a seriedade com a peruca branca despenteada no topete; o transgressor, numa plataforma de tubos de metal, é um punk de conjunto xadrez azul e vermelho. Um dos primeiros modelos exibidos é um casaco feito por McQueen para o cantor David Bowie, em 1996. Estampada com a bandeira inglesa e toda rasgada a fogo, a peça é uma recriação do frock coat que, no fim do século 18, era característico na Inglaterra. As vinhetas temáticas de AngloMania ganharam um caráter teatral com os toques do figurinista e cenógrafo de óperas Patrick Kinmont, que colaborou na montagem da exposição. No jardim inglês lembrado no Kirtlington Park Room, uma sala de jantar de 1748, a chuva vai e vem numa retroprojeção na janela, por trás da qual se vê um parque. Ali estão oito robes à l´anglaise e à la française de seda florida do século 18 e o vestido de tule de náilon cor-de-rosa da coleção outono-inverno 2000/2001 de Hussein Chalayan, que mais parece um botão de rosa feito de algodão-doce. Questões humanas e sociais como amor, morte e divisão de classes são sublinhadas em várias vinhetas e os diálogos entre passado e presente, glamour e funcionalidade às vezes passam para o tom da confrontação. A escada de Cassiobury Park, construída por volta de 1680, por exemplo, é o cenário para a instalação Upstairs/Downstairs: num vestido de corte criado por Charles Frederick Worth por volta de 1888, feito de seda acetinada rosa, veludo marfim, penas de avestruz, paetês, lantejoulas e com três metros de cauda, a dama sobe os degraus deixando para trás três criadas esfarrapadas. Essas gatas borralheiras também vestem criações de Chalayan para a primavera-verão 2002. São desconstruções com várias camadas de tecidos com referência na prática de patrões presentear empregados com as roupas que não querem mais. O termo anglomania surgiu na Europa do meio para o fim do século 18, quando a Inglaterra era vista como terra de liberdade, tolerância e razão. Mas o próprio país, na mesma época, sofria de francomania, como lembra a instalação que ocupa o Croome Court Room, de 1771. Seu dono, o sexto duque de Coventry, tinha paixão por tapeçarias francesas, e a duquesa, por vestidos de Charles Frederick Worth, que era o maior representante da elegância francesa em Londres. A francomania inglesa de hoje é sintetizada por um vestido de baile, de tafetá de seda preto, criado por Galliano para a primavera-verão 1998, que ocupa toda a sala e é acompanhado pela sonoplastia de grasnar de corvos. No Elizabethan Room, construído por volta de 1600, duas criações de Vivienne Westwood exploram a ostentação do império e da monarquia ingleses a partir de retratos das rainhas Elizabeth I e Elizabeth II. O costume da caça e os aristocráticos bailes para comemorar esse esporte sublinham a excentricidade e a teatralidade que costumam ser associadas aos ingleses, em criações de diversos designers. AngloMania, que é patrocinada pela sesquicentenária Burberry, foi celebrada na noite de segunda-feira no baile anual promovido no hall de entrada do Metropolitan pelo Costume Institute. Recepcionados pela anfitriã e editora-chefe da revista Vogue, a inglesa Anna Wintour, designers como Vivienne Westwood, John Galliano e Stella McCartney estavam lá, trocando impressões com celebridades como o ator Richard Gere, o cantor Bryan Ferry e a atriz e modelo Liz Hurley.

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