Exposição em SP reúne o melhor das trilhas

Mostra também elege 35 duos de autores

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2014 | 03h00

O título da exposição traz um ponto de interrogação curioso, Música & Cinema: O Casamento do Século?, mas seu curador, o crítico, diretor e professor francês N.T. Binh (Binh Nguyeb Trong), editor da conceituada revista de cinema Positif, tem uma explicação: “Considero que um casamento ideal também possa terminar em separação litigiosa, como foi a do diretor Alfred Hitchcock e seu compositor predileto, Bernard Herrmann”. Binh, autor de vários livros sobre cineastas como Bergman, Lubitsch e Mankiewicz, pensou justamente em casamentos perfeitos e separações desastrosas ao conceber a mostra para a Cité de la Musique - ela ficou em cartaz em Paris, entre março a agosto do ano passado, e será aberta nesta sexta-feira, para convidados, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Por meio da mostra, totalmente interativa, o público vai conferir os motivos que levaram amigos de longos anos a romper a parceria ou, ao contrário, fortalecer seus laços por meio do cinema.

Vista por mais de 90 mil pessoas em Paris, Música & Cinema: O Casamento do Século? é mais que uma exposição. Ela reúne a produção de 35 duplas como Hitchcock/Herrmann, Fellini/Nino Rota, Jacques Demy/Michel Legrand, Spielberg/John Williams, além de compositores brasileiros que escreveram trilhas para filmes, entre eles Tom Jobim (Gabriela, Porto das Caixas, Crônica da Casa Assassinada). O público é estimulado a entrar num pequeno estúdio de mixagem e fazer alterações nas bandas sonoras de filmes como Cidade de Deus (música de Antonio Pinto e Ed Côrtes), além de descobrir como eram as trilhas sonoras originais de superproduções como 2001, Uma Odisseia no Espaço, antes que o diretor Stanley Kubrick rejeitasse a música de Alex North.

Como se sabe, Kubrick trocou a trilha de North, então um dos mais prestigiados compositores de Hollywood, por peças eruditas de Johann Strauss (Danúbio Azul), Richard Strauss (Also Sprach Zarathustra) e Györgi Ligeti (Atmosphères), entre outros. “Afinal, acho que Kubrick tinha razão, pois a música de Alex North era quase uma ilustração do filme”, conclui o curador da exposição.

“Georges Delerue costumava dizer que um compositor não é um verdadeiro autor de cinema se não tiver pelo menos uma trilha rejeitada”, observa Binh, citando o próprio Delerue, que teve sua trilha para Regarding Henry (Uma Segunda Chance, 1991) substituída pela música do alemão Hans Zimmer. “Por vezes é uma exigência do produtor, para tornar o filme mais palatável, mas houve casos mais graves, envolvendo o próprio realizador.” Talvez o mais dramático, segundo o curador, seja o do fim da parceria de 12 anos e 8 filmes de Hitchcock com Bernard Herrmann, que compôs obras-primas como as trilhas de Psicose e Um Corpo Que Cai. “Foi durante a gravação de Cortina Rasgada, em 1966”, conta Binh. Hitchcock queria uma trilha mais pop. Herrmann, inflexível, recusou-se a fazer concessões. Nunca mais se falaram.

Dividida em quatro etapas, a mostra ocupa um andar inteiro do Sesc Pinheiros com monitores individuais, sala de mixagem, trechos de filmes, excertos de depoimentos, entrevistas e documentos como manuscritos, partituras originais, storyboards, pôsteres e fotografias. Durante o período de exposição, até 11 de janeiro, serão realizados shows e projetados filmes semanalmente, começando com um concerto nesta sexta-feira, no dia de abertura. No programa está a trilha de O Mágico de Oz, recriada pelo músico Antonio Abujamra e executada pela Orquestra Sinfônica de Heliópolis. Ainda em setembro o Sesc Pinheiros vai promover shows como o de Dori Caymmi (interpretando Henry Mancini).

A proposta curatorial é conquistar um público novo para a música de cinema, que virou uma febre entre colecionadores (a cada ano surgem três ou quatro selos no mercado internacional, como o recente Quartet Records, especializado em trilhas antigas). Assim, ao lado de clássicos como King Kong (1933) e Cantando na Chuva (1952), estão filmes da nouvelle vague francesa, que renovaram a sintaxe visual e musical. “Os anos 1960 representaram uma reviravolta na composição para o cinema, pois Hollywood chamou músicos pop para escrever trilhas, como Simon e Garfunkel, em A Primeira Noite de Um Homem, enquanto na França cineastas experimentais em início de carreira estabeleciam parcerias com músicos de jazz, caso de Jacques Demy com Michel Legrand ou de Godard com Antoine Duhamel.” 

A primeira parte da exposição é dedicada aos filmes que partiram de uma ideia musical (como Garota de Ipanema). A segunda destaca os filmes cuja trilha foi concebida durante a filmagem, especialmente os do começo do cinema, quando eruditos como Erik Satie trabalhavam ao lado do realizador. Na terceira parte destacam-se os cineastas que usam peças preexistentes, como Lars von Trier, sempre disposto a recorrer a um tema pop. Finalmente, na última parte, destacam-se as trilhas originalmente concebidas para um filme, valorizando a relação diretor/compositor

Um deles é o francês Alexandre Desplat, quatro vezes indicado para o Oscar (O Discurso do Rei, entre eles). Integrante do comitê de organização da exposição na Cité de la Musique, Desplat, ex-aluno do erudito Iannis Xenakis, já compôs mais de 100 trilhas desde o início de carreira, em 1985. Desplat é o parceiro mais constante do cineasta Jacques Audiard (O Profeta). Na lista dos duos mais famosos estão, entre 35 selecionados, Claude Sautet/Philippe Sarde, Peter Greenaway/Michael Nyman e Walter Salles/Antonio Pinto. Todos à espera de novos ouvintes no Sesc Pinheiros.

MÚSICA & CINEMA: CASAMENTO DO SÉCULO?

Sesc Pinheiros. R. Paes Leme, 195; 3095-9400. 3ª a 6ª, 10h30/21h30; sáb. até 21 h; dom., 10h30/18h30. Grátis. Abre sexta, 19 h.

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