Exposição em Londres retrata artista como rebelde e mártir

A imagem romântica do artista, do gênio individualista, "rebelde e mártir", é o tema de uma original exposição organizada pela Galeria Nacional da capital britânica. A mostra, que estará aberta ao público de 28 de junho a 28 de agosto, documenta o surgimento, na época do Romantismo, do mito do artista como um personagem à margem das hipocrisias e convenções sociais. Uma imagem que continua até as vanguardas do século XX.A Galeria Nacional examina como os criadores cultivaram e exploraram essa imagem, apresentando-se como heróis, visionários e lutadores diante de uma sociedade hostil.O mito encontra sua personificação mais poderosa na vida e na obra de Van Gogh e Gauguin. Hoje, no entanto, uma outra realidade se impõe: a do artista como celebridade ou personagem ansioso pelo rápido reconhecimento na sociedade de consumo.Ideal de heroísmo e belezaA exposição começa com um auto-retrato do inglês Reynolds, datado em 1779. O primeiro presidente do Real Academia de Belas Artes britânica exibe a imagem arquetípica do artista triunfante e seguro de si, com sua beca de Oxford e um busto de Michelangelo ao lado.Outros artistas representados na primeira sala, como o sueco Alexander Roslin, com o colar da ordem de Vasa ao pescoço, refletem o status e o reconhecimento sociais então ligados à atividade.A imagem heróica de Reynolds e outros, porém, contrasta vigorosamente com o auto-retrato do alemão Emil Janssen. Nele, o pintor se representa sem camisa, com o peito fundo e os ombros arredondados. Exibe sem pudores os sinais de uma doença que acabaria prematuramente com sua vida.O gênio criativo: artista isolado no mundo Com românticos e visionários como o suíço Fuseli e os ingleses William Blake e Samuel Palmer, o ideal de heroísmo e beleza dá lugar à subjetividade, à introspecção e à sinceridade do gênio criativo. É a época das confissões autobiográficas na literatura: Rousseau, Chateaubriand, Stendhal, De Quincey. É quando Caspar David Friedrich pinta seus transeuntes solitários, à beira do mar ou em algum cume alpino; Samuel Palmer, suas paisagens místicas; e William Blake, suas visões do céu e do inferno.A imagem do artista isolado do mundo é, no entanto, enganosa. Na verdade muitos deles buscam a companhia de pessoas de mesma índole e fundam comunidades como as dos "barbus", os nazarenos, os pré-rafaelitas, o grupo de Pont-Aven e os nabis.No entanto, o personagem do artista rebelde oposto ao burguês filisteu persiste. Seus representantes surgem tanto nas artes plásticas quanto na literatura. São os casos de Henri Murger, autor de "Cenas da vida boêmia", e Courbet, o artista boêmio por excelência, paladino do realismo na pintura e do radicalismo político. Delacroix pinta, por sua vez, o estúdio do pobre artista, com sua simbólica estufa de lenha. Um quadro de Cézanne com o mesmo motivo pertenceu a Emile Zola. O autor utiliza a tela em seu romance A Obra, sobre um artista fracassado, no qual o pintor francês se reconhece, a ponto de acabar cortando relações com o escritor.Imagens dos artistas como mártires encerram a exposiçãoA boemia evolui, por sua vez, para o dandismo e o personagem do "flâneur", que Baudelaire estudou em seu ensaio O Pintor da Vida Moderna, atitude de aristocrático desprezo da vulgaridade. É a figura representada por Manet, Tissot, Beardsley e Whistler, entre outros.A exposição termina com imagens dos artistas como mártires. Delacroix pinta cenas de sacrifício. Gauguin se identifica com Cristo na agonia do Horto das Oliveiras e Van Gogh também se auto-representa nesse papel numa Pietá.James Ensor cria seu Cristo Atormentado Pelos Demônios, enquanto Schiele, Richard Gerstl e Oskar Kokoschka, entre outros expressionistas centro-europeus, se auto-retratam em imagens inspiradas pelo Ecce Homo. Já o norueguês Munch, numa representação de mórbida sexualidade, mostra o artista como vítima da mulher-vampiro.

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