Exposição do artista marca os seus 30 anos de carreira

Alex Cerveny fazia obras pequenas em plena era das telas gulliverianas da Geração 80, continuando na mesma trilha em 2013

O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2013 | 02h16

Alex Cerveny completa 50 anos com uma exposição que marca seus 30 anos de carreira, na Casa Triângulo, que o representa desde 2001. A mostra será aberta hoje e reúne pinturas e desenhos do artista paulistano. Em todas essas obras é possível notar a influência que a narrativa literária exerce sobre sua arte. Compreensível. Filho de um arquiteto e de uma professora que ensinava cegos, Cerveny foi estimulado desde criança a ver o mundo segundo uma concepção muito particular, que estrutura o espaço do papel e da tela com um projeto racional, arquitetônico, logo desmontado pelo imaginário sensual desse artista ligado à tradição. Ele diz que se sente até mais narrador que artista visual, um cronista que vai buscar nos muros assírios sua inspiração.

Outra fonte de referência é o circo - e, nesse sentido, os desenhos de Cerveny não se assemelham por acaso aos do cineasta italiano Federico Fellini. Ele até criou um personagem circense quando estudava na Academia Piolin, o Elvis Elástico, um boneco que fazia contorcionismo acrobático. Esse homem de plástico remete às figuras masculinas longilíneas das obras de Cerveny, que fez sua primeira exposição numa galeria de Belém do Pará, em 1983. Em plena ebulição da Geração 80, de telas gigantescas, matéricas, neoexpressionistas, ele insistia na pequena dimensão, produzindo um trabalho gráfico detalhista, liliputiano.

Cerveny aponta as duas pequenas telas (35 x 40) logo à entrada da exposição, dois exemplos que andam na contramão do gulliverianismo que dominou as pinturas dos anos 1980 - e ainda dá as cartas no mercado de arte. "São trabalhos que fiz depois de uma viagem pelo Pantanal, quando cheguei à fronteira boliviana e fui tomado por um sentimento patriótico, para logo perceber que aquele território indefinido era, de fato, de ninguém." Numas das telas, um nativo brasileiro surge, altivo, sob a letra do Hino à Bandeira. Na outra, uma boliviana, separada do antípoda, traz sobre sua cabeça as marcas de um passado colonialista. A associação fica por conta do espectador.

Os desenhos são mais enigmáticos, até porque inspirados pelo episódio bíblico de José analisando os sonhos do faraó. Cerveny pediu a um amigo que lhe trouxesse da Alemanha uma gravura de 1512 feita pelo holandês Lucas de Leyden, que representa a mesma cena. Tomou-a como exemplo.

Cerveny faz autoanálise com ela. Arte-educador, ele se autorretrata como forma de autoentendimento (e nunca é demais lembrar que Rembrandt fez isso a vida toda). Num desses sonhos de faraó, uma figura masculina serve de ponte entre Ocidente e Oriente, estendendo pernas e braços ao limite. É um pouco o próprio Alex, que circula entre dois mundos e linguagens com desenvoltura. Num momento, ele pode ouvir uma ópera de Bellini, No outro, já está apaixonado pela cantora boliviana Abencia Mesa, personagem, aliás, de uma série inédita. / A. G. F.

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