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Exposição destaca o poder das águas e do feminino

Maurício Dias e Walter Riedweg realizam a mostra 'Estranhamente Possível' em Salvador, na Bahia

TIAGO DÉCIMO - O Estado de S.Paulo,

25 de maio de 2012 | 03h11

SALVADOR - O mar, de ressaca depois da chuva que caiu durante a semana em Salvador, invadia o Solar Café, o restaurante do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), no Solar do Unhão, no início da tarde de sábado. A data marcava a abertura ao público da exposição Estranhamente Possível, dos artistas Dias&Riedweg, que segue no local até 22 de julho. Admirados, o brasileiro Maurício Dias e o suíço Walter Riedweg acompanhavam a força das ondas avançando sobre a construção. "Aqui, tudo é água", resumiu Dias.

E é exatamente a água o elemento aglutinador dos seis trabalhos dos artistas expostos na mostra: as videoinstalações Juksa (2006), A Casa (2007), Paraíso Cansado (2008) e Deus É Boca (2002), esta apresentada durante uma encenação com cinco atores, a série fotográfica O Jardim (2008) e a inédita videoinstalação Água de Chuva no Mar, realizada em janeiro, durante uma residência artística da dupla na comunidade do Unhão, no bairro da Gamboa de Baixo, vizinha do MAM.

A residência surgiu de um convite da ex-diretora do MAM, Solange Farkas, que queria realizar na Bahia a primeira mostra individual da dupla, celebrada internacionalmente em importantes exposições de arte contemporânea, como as Bienais de Veneza, Havana, Xangai, Liverpool e São Paulo.

Os artistas conheceram o museu e, fascinados pela proximidade dele com a pequena favela vizinha, decidiram realizar ali um trabalho sobre a interação entre os espaços e as pessoas que os ocupavam, dentro do conceito de alteridade que marca a carreira de duas décadas dos artistas. "O projeto inicial usaria um jogo de espelhos, com feixes de laser unindo pontos entre o museu e a comunidade, interligando construções e pessoas", conta Riedweg.

Isso foi antes de Dias e Riedweg começarem a conviver com os habitantes do local. Perceberam rapidamente que não seria preciso nenhuma grande intervenção técnica para traçar as relações entre os moradores da favela e o museu. "Há diversos pontos em comum, a começar pelas próprias pessoas que trabalham no museu e moram na comunidade, que são muitas", justifica Dias.

Mas foram outras características em comum entre a Gamboa de Baixo e o Solar do Unhão que definiram o rumo do trabalho: a água e o poder feminino. "Mal começamos a residência e vimos que os lugares têm em comum o fato de ficarem praticamente dentro da água e que os moradores da comunidade vinham a uma fonte que existe no solar para pegar água", lembra ainda Dias.

"Além disso, os dois lugares têm uma predominância, populacional e de poder, das mulheres", justifica o brasileiro da dupla. "Quase todos os funcionários do museu, desde sua diretora (Stella Carrozzo), são mulheres. A população da comunidade do Unhão também é majoritariamente feminina - e também são elas que detêm o poder social e financeiro das famílias que moram ali." O resultado é uma instalação de 20 minutos focada nas numerosas lavadeiras que vivem ali. Mulheres, muitas vezes invisíveis - "como água de chuva no mar", explica Dias -, que convivem e se sustentam da água. "Não é só sobre elas, mas sobre como as pessoas se articulam para viver com o que a vida lhes oferece", diz o artista. "Há muita sabedoria nisso", complementa Riedweg.

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