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Exposição de Ron Mueck explora a condição humana

MAM do Rio espera bater recorde de visitação com mostra dedicada ao australiano

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo/ Rio

19 de março de 2014 | 17h16

Um homem e uma mulher entrados em seus 70 ou 80 anos. Relaxados numa praia, sob o abrigo de um gigantesco guarda-sol. A posição dos corpos é típica de um amor adolescente: ele, com a cabeça no colo da companheira, tem semblante perdido; ela contempla o companheiro. As varizes, os pelos, as unhas mal cortadas, as manchas senis, os vincos na pele, todas as características físicas são reproduzidas com extrema perfeição e sofisticação técnica nessa escultura dupla de dois metros de altura do artista australiano Ron Mueck. É a mais corpulenta da mostra a ser aberta ao público hoje no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio.

Casal Debaixo do Guarda-sol, a despeito das dimensões, não é necessariamente a mais impactante entre as nove obras trazidas ao Rio. A poucos metros está Mulher com as Compras, de 1,13 metro. Uma mulher de olhar vazio carrega nas mãos sacolas de supermercado e traz o filho bebê sob o casaco pesado. Sua matéria é de resina, fibra de vidro, silicone e acrílico, mas a expressão de cansaço é idêntica à das mães de carne, sangue e osso.

Não tivessem dimensões não-humanas, as esculturas de Mueck passariam por pessoas que vemos nas ruas. Se o espectador as observa por muito tempo, a impressão é que logo vão piscar. “É muito bonito ver a interação do público com as obras. É a humanidade diante da humanidade. É o que faz com que a arte de Mueck seja única”, diz Hervé Chandès, diretor da Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, que veio para a abertura.

Foi a fundação que montou a exposição, em seu moderno prédio parisiense, projetado pelo arquiteto Jean Nouvel. Os visitantes chegaram a quase 400 mil. Em seguida, o conjunto foi para a Fundação PROA, em Buenos Aires, e o sucesso se repetiu: 200 mil pessoas em três meses. “A expectativa deles era de apenas 50 mil. A gente está esperando entre 200 mil e 220 mil até junho. O trabalho dele é muito instigante, tem um boca a boca importante”, acredita o presidente do MAM, Carlos Alberto Chateaubriand.

Ainda que desconhecido no Brasil, Mueck chega ao MAM com status de exposição do ano, promessa de recorde de visitação – este é de 1999, quando Picasso atraiu 280 mil pessoa em quatro meses. 

A escala, a ambiência, as intenções das figuras, tudo isso é material da arte de Mueck. O rapaz e a moça da escultura Jovem Casal (feita especialmente para a ocasião, mesmo caso do Casal Debaixo do Guarda-sol e de Mulher com as Compras e do filme Natureza Morta, incluído na exposição) têm uma dinâmica curiosa: embora a expressão deles seja pacífica, ele segura firmemente o punho da namorada. O que teria acontecido? “Nada em Mueck é por acaso. Não são manequins”, comenta a curadora Grazia Quaroni. 

Só recentemente ele passou a criar seres acompanhados – a solidão é uma marca de sua produção até aqui. Cada detalhe é amplo em significado: a depilação mal feita da mãe com o bebê nos leva a crer que ela não tem tempo para si; a palidez extrema do senhor nu num barco enorme em Homem em um Barco sugere que ele está perto da morte. A Mulher com Galhos, gorda, nua e arranhada, mistura, paradoxalmente, força e vulnerabilidade. Com centenas de fios de barba implantados um a um, a Máscara II, do rosto do artista, é a única escultura oca.

Mueck nasceu em 1958 em Melbourne e se radicou em Londres. Sua família fabricava brinquedos e ele não teve formação artística. Criou bonecos para a TV e o cinema e entrou para o mundo das artes quando chamou a atenção do milionário colecionador britânico Charles Saatchi, nos anos 90. Hoje, suas esculturas maiores valem dezenas de milhões de dólares. 

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