Glauber Bassi
Julio Brasil e Margarida Pereira participam de ensaio fotográfico de Glauber Bassi e falam sobre isolamento social durante pandemia de coronavírus. Glauber Bassi

Exposição de fotos evidencia sensação de isolamento dos idosos: ‘Me disseram que só velhos morrem'

Fotógrafo Glauber Bassi realiza projeto ‘Beleza sem Idade’ e recebe depoimentos sobre solidão de pessoas com mais de 60 anos

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 08h50

 

No início da pandemia do novo coronavírus, sobretudo quando o alto índice de mortes na Itália estava relacionado às pessoas com mais de 60 anos, muitas pessoas acreditavam que somente os idosos poderiam registrar casos mais graves da doença. Pensando em reverter essa situação, o fotógrafo brasileiro Glauber Bassi, conhecido por fazer diversas capas de revistas ao redor do mundo, fez seu último projeto chamado "Beleza sem Idade", em fevereiro deste ano. 

A ideia era criar um atrativo para conscientização sobre os cuidados com o público 60+, que vem sofrendo com a pandemia. "Fiquei tocado com os depoimentos que começaram a me enviar. Eles precisavam de alguém para conversar sobre isso", afirma Glauber Bassi.

Um dos fotografados, Julio Brasil, de 60 anos, comentou sobre o que sente diante da repercussão. "Não vi as autoridades competentes em momento algum responsabilizando este ou aquele grupo de faixa etária pela propagação do vírus. Nós, acima dos 60, sabemos que o vírus pode ser fatal. Sabemos de nossa responsabilidade. Porém os que estão abaixo dos 60 possuem enorme responsabilidade. Esta turma deve ter consciência que uma conduta desregrada pode matar os mais velhos", desabafou.

Maria Antonieta, 70 anos, que também participou do projeto, revelou as críticas que já passou e ainda passa nesse momento de pandemia: "Há algum tempo, externei minha preocupação em relação ao contágio e fui muito criticada por uma jovem que me disse que não pertencia ao grupo de risco, que quem estava morrendo na Itália eram ‘apenas os velhos’. Sei que é uma doença muito grave para nós, os idosos, mas todos precisam de cuidados", ressaltou.

O fotógrafo Glauber Bassi acredita que, com uma releitura do ensaio fotográfico de fevereiro, haverá uma sensibilização para a discriminação. "Eles merecem mais do respeito, atenção e todo o cuidado possível. Ajude o idoso mais próximo, tenha compaixão com as pessoas e assim, acredito que todos evoluiremos para melhor", diz. "No projeto Beleza sem Idade eu quis evidenciar a alegria deles. Tudo foi feito em fevereiro deste ano, no Brasil. Na época, ninguém imaginava o que estava por vir, por isso tenho a sensação de que o trabalho foi realizado em outra vida. Quero trazer de volta essa alegria capturada nas fotos, pra mostrar que a felicidade existe", conclui. 

VEJA TAMBÉM: Pessoas com mais de 60 anos participam de exposição de fotografia

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Coronavírus: É possível convencer idosos a fazer quarentena? Saiba como

Diversidade da população pode ser desafio para persuasão, mas existem alguns caminhos

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 07h30

Por que a sociedade trata o idoso como criança? Após, pelo menos, 60 anos de experiência de vida, passando por inúmeras situações, desilusões, conquistas e aprendizados, por que seus sentimentos não são validados? A maneira pejorativa como a sociedade sempre encarou a velhice impede que se perceba que exista uma multiplicidade de idosos.

“Nos deparamos com coletivos muito desiguais: idosos assistidos dignamente e outros totalmente desamparados. Mas o que existe em comum nesses dois universos é a maneira pela qual a sociedade percebe essa parcela imensa da população: pessoas sem potência de vida. Basta observarmos como os velhos são, infelizmente, tratados pelos mais jovens: no diminutivo, como se crianças fossem”, avalia a mestre em Gerontologia Social pela PUC de São Paulo Maria Antonia Demasi.

A doutoranda pelo Departamento de Ciências Sociais na mesma instituição vai além: “A questão é que, aqueles que nominamos ‘velhinhos’, pessoas em diminutivo, são homens e mulheres com uma construção de vida tal que os fizeram chegar até aqui, inteiros, mais ou menos vulneráveis, frágeis, mais ou menos saudáveis, vitais, mais ou menos demenciados frente as intensidades do existir”, afirma.

Além de multiplicidade de situações sociais, os idosos, que compõem o grupo de risco para coronavírus, foram agrupados pelos critérios médicos de funcionamento fisiológico humano: tipo de sistema imunológico, de capacidade pulmonar e cardíaca, por exemplo.

“Há idosos completamente ativos do ponto de vista profissional, físico e social em um extremo, e, no outro, idosos totalmente dependentes física e mentalmente”, ressalta a neuropsicóloga Gisele Calia.

Para entender a dificuldade de adesão de todos à quarentena, é necessário encontrar fatores em comum que possam estar presentes para que grande parte desse grupo tenha apresentado resistência. E este é o maior desafio.

Por que os idosos têm dificuldade em cumprir quarentena?

Para os pais que já passaram dos 60 anos de idade, é muito difícil passarem de uma situação em que têm autonomia para uma de dependência, como se fossem “filhos dos filhos”, na análise do psicanalista Cláudio Castelo Filho. “Como ao final da vida, depois de tantas privações e sacrifícios, não vou poder fazer como melhor me aprouver? Como alguém se atreve a esta altura da vida a me dizer o que posso e o que não posso?”, diz.

Ele acrescenta que alguns indivíduos vivem em negação: “Os idosos costumam ficar em situações de maior solidão e isolamento social já naturalmente, visto que se aposentam, estão longe das relações de trabalho, das amizades, e muitas vezes mal veem os filhos e parentes. Um enclausuramento forçado devido à doença que se espalha pode parecer intolerável e a frustração do contato humano pode tornar-se insuportável. Parte-se para a negação da realidade e opta-se pelo risco. Vi um depoimento de uma senhora francesa sobre o que se passava em Paris, antes do decreto de confinamento radical, e ela dizia que a depressão de ficar em casa era pior do que o vírus”.

A neuropsicóloga Gisele Calia explica que há uma espécie de ‘configuração cerebral’ diferente dessa geração que passou dos 60 anos: “Nascidos muito antes da era tecnológica, seus cérebros foram “formatados” pela e para a vida física, e não pela virtual. Acostumaram-se a se motivar por estímulos reais, produzidos pelo contato físico com a natureza, com os outros seres humanos, com os cheiros e ruídos vindos do exterior, com o vento no rosto, com o aperto de mão, com o olho no olho e com a locomoção a pé, por exemplo. Obrigá-los a ficar em casa é tão difícil quanto pedir que um jovem passe um dia sem acessar qualquer mecanismo virtual”.

Um dos aspectos apontados por Gisele Calia é a própria percepção dos idosos sobre si. “Se a autoimagem do idoso de antigamente era a do “senhorzinho de bengala”, hoje em dia, muitos se sentem e se veem como jovens, atletas, e não como integrando um “grupo de risco”. Se me sinto e me percebo como tão saudável, como posso me identificar como integrante do grupo que será o mais atingido por uma doença? Assim, posso sair na rua tal qual meu filho ou meu neto pois sou tão ou mais saudável do que eles”, diz.

Outra situação que vale destacar é que declínios cognitivos leves podem estar presentes nos idosos mais saudáveis fisicamente, por anos, sem afetar drasticamente a vida autônoma, independente, e sem mostrar sinais óbvios mesmo para os parentes mais próximos. “Tais declínios podem ser manifestados em forma de teimosia, dificuldade para aceitar opiniões diferentes das suas, resistência exacerbada a mudanças de rotinas e planos, diminuição da capacidade de planejamento e de tomada de decisões. Em uma situação de isolamento social imposta, tais declínios podem afetar a capacidade de aceitar o que lhe é pedido e de se organizar para passar um tempo em quarentena”, enfatiza a neuropsicóloga.

 Como convencer idosos a fazer quarentena durante a pandemia de coronavírus?

 Adriana Souza teve muita dificuldade para convencer a avó a cumprir a quarentena. “Eu tentei de tudo: disse que não teria vaga nos hospitais, falei sobre os sintomas e todo o sofrimento. Em desespero e para amedrontar, falei que ela iria para o hospital e sairia de lá morta. Não adiantou. Ela dizia: ‘Mas estou bem, não vai acontecer nada, se Deus quiser’. É desanimador”, desabafou.

“Já tentou fazer uma criança tomar remédio amargo? Tem-se que convencê-la que aquilo ruim que você - justo você que diz que a ama - dá para ela, vai lhe fazer bem. Com o idoso que tem que ser convencido a ficar em casa, é semelhante. Mas não igual. Nunca compare um idoso a uma criança. Ele já se sente desvalorizado, sem autoridade e como se estivesse em segundo plano”, avisa Gisele Calia. 

A pedido da reportagem, a neuropsicóloga enumera duas sugestões para convencer um idoso a respeitar a quarentena:

- Se o idoso for tratado como uma criança, que não sabe o que faz, que não tem noção das consequências de seus atos, esses sentimentos de desvalia aumentarão e dificultarão ainda mais que ele venha a aceitar sua recomendação;

- Outro caminho possível: estabelecer um diálogo em que experiências bem sucedidas pessoais anteriores dele, relacionadas a enfrentamento de situações difíceis, financeiras, de saúde, de disputas familiares, possam lembrá-lo como ele foi corajoso, heróico e o quanto você, como filho, o admirou e admira por aquilo, pelo exemplo que ele foi. Torná-lo um personagem ativo, corajoso nessa história de isolamento social pode virar o jogo. Ele passará de vítima a agente de resistência.

Idosos em quarentena: o que fazer com eles?

Convencido a ficar em casa, o próximo passo, não menos importante uma vez que a depressão, junto com o vírus, torna-se uma inimiga poderosa que mina o sistema imunológico, é explorar em conjunto as opções de atividades significativas que ele possa desenvolver de casa. Vamos a algumas indicações da neuropsicóloga Gisele Calia:

• Tornar-se um agente multiplicador: telefonar aos amigos (e não mandar frios textos de WhatsApp) para compartilharem experiências de quarentena e mostrar quão bem ele está (os idosos costumam competir silenciosamente entre si para ver quem “chega mais longe e bem de cabeça”).

Afastar-se das notícias trágicas, monotemáticas e deprimentes sobre o vírus. Desligar a TV (lembre-se, eles nasceram muito antes da TV ter sido inventada; pode ser mais fácil do que se imagina).

Cozinhar pratos que possam ser congelados e que sirvam de alimentação para pessoas realmente dependentes (Você pode dizer: ‘Nós, seus filhos, que por estarmos em home office e sem funcionária em casa não conseguiremos manter uma alimentação saudável’).

• Descobrir sites, aplicativos ou páginas no Facebook que ensinem exercícios físicos para idosos fazerem em casa e compartilhar com seus contatos (além de colocar em prática os exercícios, claro).

Ler um livro e resenhá-lo para você que, por estar cuidando de sua casa e filhos, não terá tempo de ler (dois coelhos com uma cajadada só...você se atualiza e ele estimula a cognição).

• Costurar máscaras de tecido para os profissionais de saúde (como em uma guerra, poder contribuir concretamente com os soldados traz bons sentimentos de força e utilidade).

• Contar histórias da família, de quando você era criança, para os netos (pelo Skype, Face Time, Vídeo Chamada ou mesmo pelo telefone). Os netos vão se envolver e se enriquecer muito com essas histórias.

Diferentemente das crianças, os idosos precisam de argumentos sólidos e fundamentados para aderirem ao distanciamento social durante a pandemia do novo coronavírus. “Um argumento pode ser a importância de deixar os hospitais livres para “os outros”, os que estão de fato doentes. Mas, assim como as crianças, os idosos precisam que tudo seja dito com muita sensibilidade, carinho, pois eles costumam entender e aceitar mais o que vem pela via dos afetos, do amor, do que da imposição e determinação racional”, conclui Gisele Calia.

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Pessoas já fazem planos para quando tudo voltar à normalidade após a quarentena

Projetos artísticos, profissionais, pessoais ou familiares têm pausa para reflexão; mas muitos já pensam o que fazer no pós-pandemia

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2020 | 05h01

Quando acabar o período de isolamento social e a pandemia de coronavírus der sinais de desaceleração, o artista plástico Bruno Freitas pretende reabrir seu ateliê na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, com a exposição Quarentena.

São 40 retratos produzidos ao longo do período de confinamento pelo artista de 34 anos que já expôs na Irlanda e venceu dois prêmios da Associação Paulista de Belas Artes. As obras estão sendo criadas a partir de fotos enviadas por conhecidos e anônimos pelas redes sociais. A intenção de Bfrema – nome artístico – é conectar pessoas de alguma forma nesse momento de isolamento social e, quando tudo passar, propor reflexão.

O principal projeto da jornalista Cris Parziale quando a vida voltar ao normal é celebrar o aniversário do filho, Marco, que fez 10 anos em 12 de março. Não teve festa. Por enquanto, ele está aceitando bem o adiamento. Virou o jogo e a quarentena agora é motivação. “Quando acabar tudo isso, eu vou ter uma festa”, diz o aluno do 5.º ano do Colégio Candelária, em Indaiatuba, interior de São Paulo.

Ele até “abriu mão” do presente. Os avós maternos deram R$ 500 para comprar o que quisesse. Com lojas fechadas e o aumento do consumo de refeições entregues em casa, deu o dinheiro para a mãe comprar “pão, carne ou Coca-Cola”. Depois, será “reembolsado’’.

O aniversário de 92 anos do aposentado Martinho de Souza Mangabeira, no dia 20 de março, não foi completo neste ano. Por causa das restrições recomendadas pela Organização Mundial da Saúde, só os familiares mais próximos, aqueles que residem em sua casa, no bairro Vila América, em Santo André, cantaram o “parabéns para você”. O restante da família não pôde ir.

“Todos os anos, nós nos reunimos para comemorar o aniversário do meu pai. Ele é mais velho que minha mãe e está começando a apresentar sinais de perda de memória. Mas ele nunca se esquece da reunião familiar pelo aniversário. Por isso, a festa é tão especial”, diz a filha mais nova, Eliana Mangabeira, dona de casa de 55 anos que respondeu a quarentena e não participou da festa mesmo morando só a 1,4 quilômetros do pai. 

Assim que a quarentena acabar, a família pretende fazer uma nova comemoração. “Minha família já está planejando um churrasco para marcar o reencontro e o aniversário do meu pai de novo. Com certeza será uma choradeira”, diz Eliana.

Como ficou mais ou menos claro pelas entrelinhas, a questão proposta para o Bruno, a Cris e a Eliana foi: “O que você gostaria de fazer após a quarentena?” Esses e outros relatos comprovam que o isolamento esgarçou, mas não rompeu a capacidade de pensar a vida após a pandemia. “Nós saímos do piloto automático e paramos para pensar na vida. Por um lado, isso pode trazer desespero e ansiedade. Por outro lado, pode abrir horizontes”, diz o filósofo Gerson de Moraes, professor da Universidade Mackenzie. “Precisamos absorver a ideia de que o mundo anterior não existe mais e tentar sair como pessoas melhores. Aí começam os projetos. A esperança nos conecta ao futuro. Hoje, nós estamos presos no tempo e no espaço, mas conseguimos sonhar com algo melhor”, explica.

No caso da assistente social Sandra Farinazzo Maioli, seu projeto pessoal aponta para o futuro, mas também representa um acerto de contas com o passado. Em janeiro de 2019, ela sofreu um grave acidente de carro que resultou na morte de dois amigos. Uma das sequelas foi a necessidade de uma cirurgia de hérnia abdominal, que estava marcada para o dia 27 de março. Como todas as cirurgias eletivas no País foram adiadas, o procedimento não tem data para ocorrer. “Fazer essa cirurgia é a última etapa de um longo processo para voltar à vida normal”, diz a profissional de um hospital psiquiátrico na cidade de Jandaia do Sul, no Paraná.

A exemplo do artista Bruno Freitas, o cantor Carlos Navas aposta na arte para seguir adiante. Intérprete independente há 24 anos, com dez discos gravados, Navas pretende intensificar os projetos infantis e educativos no segundo semestre. Um dos seus projetos de maior sucesso é o show Chico & Vinicius para Crianças, que já foi visto por mais de 300 mil pessoas. “A música será mais reconhecida como instrumento de autoconhecimento, reflexão e cidadania. Meu trabalho faz olhar para dentro. Acho que as pessoas estarão mais abertas para experiências desse tipo”, diz.

Os planos para o segundo semestre também podem significar um ajuste de direção na própria vida. Em agosto passado, a enfermeira Luciana Fracarolli Garcia, de 39 anos, foi para o Canadá estudar inglês e trabalhar. Enquanto cursava as aulas na Thompson Rivers University, em Kamloops, província de British Columbia, tentava a validação do seu diploma brasileiro.

REPLANEJAMENTO

Três fatores fizeram com que ela mudasse seus planos: o atraso na documentação, a falta de adaptação à nova realidade e o fato de a mãe, dona Denise, ter ficado sozinha no Brasil – é viúva e tem 60 anos. “Fiquei pensando sobre quem faria as tarefas do cotidiano para ela, como ir ao supermercado ou acompanhá-la ao hospital, se isso fosse necessário, em época de quarentena.”

Por isso, Luciana decidiu antecipar a volta ao Brasil. Seu plano principal agora é retomar a carreira por aqui. “Tomei a decisão certa, mesmo que São Paulo registre mais casos de coronavírus do que a região onde eu morava no Canadá”, avalia.

“Nós saímos do piloto automático e paramos para pensar na vida. Por um lado, isso pode trazer desespero e ansiedade. Por outro lado, pode abrir horizontes.”

RETOMADA VAI DEPENDER DO CONTROLE ATUAL

A retomada da vida normal após a pandemia será lenta, progressiva e diretamente relacionada às medidas de contenção tomadas atualmente. Quanto mais pessoas seguirem o isolamento social, menos infectados e doentes ocuparão os hospitais. Mas aquela “vida normal” não será como antes. Esse é o cenário do fim da pandemia projetado por epidemiologistas, infectologistas e virologistas consultados pelo Estado.

A fase exponencial de aumento de casos ainda deve durar alguns meses. O clínico e infectologista Paulo Olzon, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que, quando uma parte grande da população, em torno de 50%, estiver imunizada, ou seja, tiver contato com o vírus e criado anticorpos, a curva de casos deve começa a cair. A partir daí, a transmissão diminui e a doença regride.

Isso significa que não haverá um dia da virada, portanto. “Podemos ter casos de doentes nesta fase, mas aos poucos a imunidade da população deve ir aumentando, o que pode diminuir a transmissão. Deve-se levar em conta que pessoas recuperadas podem ser novamente infectadas”, opina o virologista Paulo Eduardo Brandão, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.

A médica sanitarista Ana Freitas Ribeiro, do Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas, afirma que a China observa número reduzido de casos de transmissão local após o fim das medidas de distanciamento social. “Isso pode estar relacionado às medidas de detecção de casos, isolamento dos doentes e quarentena dos contatos.”

Os especialistas afirmam que os próximos meses serão marcados pela luta por vacina e tratamento. Um dos ensaios clínicos vem sendo desenvolvido pelo médico gaúcho André Kalil na Universidade de Nebraska. O infectologista de 53 anos conduz estudos sobre a droga remdesivir, que já apresentou efeitos contra doenças como a Sars, por exemplo, em animais e no ambiente laboratorial (in vitro). Mas o estudo foi planejado para três anos. “A ideia não é testar uma só droga, mas várias”, diz Kalil, que trabalha nos Estados Unidos há 20 anos.

Nessa busca de soluções para o novo coronavírus, a luta contra outras doenças pode ser favorecida. São os casos da tuberculose, aids, raiva e leishmaniose. “Já passamos por isso em outras pandemias, como cólera, peste e influenza. A humanidade mudou e seguiu em frente”, avalia Paulo Brandão. 

Já o cirurgião de coluna Luiz Cláudio Lacerda Rodrigues, professor da Faculdade de Medicina Santa Marcelina, direciona seu olhar para o lado emocional. “As pessoas vão demorar a perder o medo do abraço.”

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