Exposição de arte rupestre discute ocupação do Brasil

Inédita, a exposição Arte Rupestre Brasileira: Um Recorte no Tempo e no Espaço será inaugurada dia 9, na Galeria do Espaço do BNDES. São ao todo 80 fotografias, a maioria de pinturas pré-históricas encontradas nas rochas da região da Chapada da Diamantina, além de um vídeo sobre a conservação desta arte, peças de artesanato indígena como cocares e bordunas. A exposição é resultado de um estudo da Arqueóloga Maria Beltrão, viúva do ex-ministro Hélio Beltrão, que coordena desde 1982 um projeto no município de Central, Norte da Bahia. O chamado Projeto Central já identificou várias pinturas e gravuras que datam de 500 há 30 mil anos, resultando em novas hipóteses de ocupação desta região. Seis módulos serão montados a partir de trabalhos de pesquisadores ligados ao projeto.O módulo central da exposição apresenta a teoria sobre datações e a evolução da pesquisa de Maria Beltrão, que está na Bahia dando continuidade ao projeto. Há 40 anos pesquisando a região, ela identificou um novo estilo de arte rupestre, uma nova "tradição cultural". A tradição cosmológica, como foi denominada, apresenta pinturas de elementos geométricos em diversos níveis de complexidade, em grutas e cânions, interpretados como fenômenos astronômicos. A existência de pinturas de animais que não sobreviveriam ao atual clima semi-árido, sugere que estes eram contemporâneos de habitantes da Chapada há pelo menos 20 mil anos. Esses dados são originais no panorama arqueológico brasileiro.Na entrada, os visitantes conhecerão as tradições encontradas no Brasil.. O antropólogo Joaquim Perfeito da Silva identificou quatro delas na região arqueológica pesquisada. A tradição nordeste apresenta figuras em movimento, desenho livre, espontâneo e com acabamento refinado. É encontrada nos estados da Bahia, Piauí, Paraíba e Pernambuco. A planalto, está presente desde o Paraná, passando por São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Goiás e se caracteriza por desenhos de mamíferos e aves. Grafismos não figurativos, raros animais e algumas grandes figuras humanas detalhadas definem a tradição São Francisco, identificada ao longo do rio São Francisco. A Tradição cosmológica identificada no Alto Sertão Baiano pela Dra. Maria Beltrão também está presente. Num segundo módulo, a pesquisadora Ângela Rabelo selecionou algumas impressões de mãos nas rochas sob uma abordagem antropológica. Segundo ela, a mão direita estaria ligada ao lado espiritual, ao sagrado. "A pintura rupestre tem um significado para a cultura que o produziu", explica a arqueóloga. A idéia deste espaço é estimular o público à interpretação desses sinais. Já a Pesquisa do biólogo Flávio Faria sobre xamanismo é o tema de outra parte da exposição: a comunicação com o Cosmo e a desmaterialização estão presentes por meio de figuras "teriantrópicas" (desenhos de partes de animais incorporados aos membros ou cabeças de humanos). Linhas no entorno de algumas figuras, sugeririam o uso de alucinógenos. Como ponte entre a pré-história brasileira (período anterior à escrita) e a história, um outro módulo enfoca a influência da cultura pré-histórica após a colonização portuguesa e a arte rupestre ainda presente neste período. A arqueóloga Salete Neme é a responsável por este estudo. Os visitantes poderão assistir um vídeo sobre o trabalho da arquiteta Márcia Braga de conservação destas pinturas, que são deterioradas por erosões, ação de fungos, crescimento de raízes e a pior de todas, a ação predatória do homem que pixa, arranha e destrói as rochas. Para Márcia, que também é curadora da exposição, o brasileiro desconhece este tipo de arte. Mesmo esta definição só é aceita quando se trata de pinturas e grafismos, outros objetos arqueológicos estão fora deste conceito. A discussão é complexa pela dificuldade de definição da própria arte. Contudo o objetivo da exposição está em apresentar uma relíquia até então restrita aos cientistas. "Queremos que o conhecimento científico alcance o público leigo", conclui Márcia.Arte Rupestre - Um Recorte no Tempo e no Espaço - Galeria do Espaço BNDES - Av. Chile,100-Térreo, Centro, tel 277-7757. De 08 de agosto a 8 de setembro - 2ªa 6ªfeira, de 9h às 19h. Entrada Franca.

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