Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Exposição AR é destaque na reabertura da Casa de Cultura do Parque

Centro cultural recebe obras de Guto Lacaz, Lenora de Barros e Wagner Malta Tavares

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 05h00

O mundo inspira arte e a arte inspira o mundo. Não por menos, durante a pandemia foram inúmeras as criações de músicas, pinturas e performances com o tema do isolamento social. Pouco mais de um ano depois, ela ainda é fonte de inspiração e motivação para os artistas, mas dessa vez com um olhar mais positivo, ou, ao menos, reflexivo.

AR, coletiva com trabalhos de Guto Lacaz, Lenora de Barros e Wagner Malta Tavares é o grande destaque do novo ciclo expositivo da Casa de Cultura do Parque, centro cultural localizado em frente do Parque Villa-Lobos, que reabre as portas no próximo sábado, 19.

“A exposição acabou, não propositalmente, sendo muito pertinente para os nossos dias porque fala sobre um ar que está no espaço, nessa vontade de respirar com mais facilidade, mas também da falta do ar”, reflete o curador e diretor artístico da Casa, Claudio Cretti. Para ele, “AR não é uma exposição retiniana”. Ou seja, não é um espaço somente para ser olhado, mas também local de sentir o movimento do vento, do som e das máquinas.

“O espectador fecha um ciclo porque você produz um trabalho que vai de um a dez anos de forma muito solitária e a sua vaidade pede que você mostre aquilo. É um rito de passagem, e, para isso, o visitante é peça fundamental”, coloca Guto. 

O artista apresenta três de seus Eletro Livros, os quais põem em movimento algum detalhe de uma ilustração de um livro. Emília, do Sítio do Picapau Amarelo, salta da história para o espectador; um avião de caça Hellcat sobrevoa a página de um livro sobre a Segunda Guerra Mundial e uma lupa passeia por uma cena de Robinson Crusoé.

A ideia para a série, que começou a ser produzida em 2012, foi um acidente feliz. “Eu queria fazer trabalhos novos e olhei minha biblioteca para inspiração. Lá tinha um livro bonito com um medalhão. Com olhos cinéticos, peguei uma barrinha semelhante, coloquei-a em cima e ‘bingo’. Percebi que dava pra tridimensionalizar e dinamizar as fotos”, explica o artista.

Seguindo essa ludicidade, Wagner Malta Tavares usa a energia elétrica e o próprio vento para garantir que seus objetos fiquem em constantes movimentos e Lenora de Barros fecha o ciclo com o uso do ar para propagar um mantra em caixas de sons simultâneas. “A obra se chama O Que Ouve. Então tem um jogo de palavras ali, ou seja, o houve do verbo haver no passado e o ouve, presente, com sentido de ouvir”, diz a artista.

Apesar de as obras terem sido criadas no passado pelos artistas, elas foram colocadas juntas pela primeira vez e, consequentemente, ganharam outras interpretações. “Todas foram ressignificados ali a partir de um diálogo, de um coletivo”, pontua Lenora.

Para Wagner, “o trabalho acaba se atualizando a cada olhar”. “Quando o trabalho consegue sobreviver ao tempo e te trazer para o momento no qual você está vivendo, aí ele é bem-sucedido”, conclui ele.

Além da exposição coletiva, o local recebe os projetos Gabinete, de Marcelo Pacheco, com as obras Sementes no Bolso, feitas através de materiais descartados colhidos pelo próprio artista em seu cotidiano; e o trabalho Paisagem de Adrianne Gallinari no projeto 280 x 1020 com giz de cera sobre tecido.

O percurso de todo o centro cultural fundado pela colecionadora Regina Pinho de Almeida chama a atenção pelo seu rico acervo de obras de arte, elegância arquitetônica e vasta presença de plantas. Um lugar que realmente coloca a natureza e a arte em contato.

“Uma das coisas que a gente tem muito interesse na casa, e por isso chama Casa do Parque, são trabalhos que falam dessa relação da arte com a natureza, com a ciência, e isso está presente nesse ciclo expositivo”, explica Cláudio. O curador diz também gostar de convidar alguma pessoa para escrever um texto sobre as experiências da exposição. Neste caso, a jornalista Juliana Monachesi falou sobre AR e Fernanda Pitta, curadora sênior na Pinacoteca do Estado de São Paulo, escreveu sobre Sementes do Bolso.

Tecnologia. Mas se por um lado ansiamos o contato com a natureza, por outro, vamos nos adaptando, cada dia mais, com as tecnologias e seu uso exacerbado no momento atual. Foi justamente esse lado que inspirou o artista Alê Jordão, em sua exposição Free Hands, que inaugurou a nova sede da Galeria Choque Cultural, no Jardim Paulista, no último dia 5. 

Nela, o artista brinca com impressões de emojis feitos em raio X e transformados em tapeçarias. “É uma proposta que dialoga com o início da minha carreira, mas também alude aos materiais com que mais trabalho hoje em dia, como os diferentes modos de se ajustar luz e sombra”, diz.

O local recebe também a coletiva Nova em Folha, que reúne a mais recente produção dos artistas que integram o corpo da galeria.

A diversidade de abordagem sobre a situação do momento é o elo em comum entre as duas exposições. “Todos estão olhando para essa questão, para esse momento”, diz Baixo Ribeiro, fundador da galeria. 

De acordo com ele, o novo local vem com uma proposta funcional, servindo para pesquisa de artes em geral e de exposições mais compactas e sem tantas interações – isso fica para a sede da Vila Madalena

Além de um rico acervo online, a Choque participa da SP-Arte Viewing Room, evento digital que termina amanhã, 13, e antecipa a feira presencial a ser realizada em agosto. “O espaço está servindo, hoje em dia, mais pra você ir conferir a obra que você já estava namorando online ou conversar pessoalmente sobre o artista”, opina Baixo.

A opção híbrida é comum entre os participantes do grande evento de arte. A Galeria Marília Razuk, por exemplo, exibe online e em seu espaço físico a exposição Água-viva, do artista mineiro Alexandre Wagner. Até o dia 24 de julho, as pinturas do artista, que transitam entre a figuração e a abstração, estarão expostas com texto da curadora Kiki Mazzuccheli. 

Nas palavras de Alexandre, “a possibilidade de uma coisa deixar de ser imediatamente o que parece ser” é característica fundamental do seu processo. “Quando isso acontece, sinto que o trabalho permanece em atividade, que continua gerando sentidos porque não pôde ser nomeado de forma definitiva”, diz. 

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