Explosiva

O encontro de Jason Statham e Jennifer Lopez é a própria razão de ser do violento thriller Parker

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2013 | 02h08

Três filmes policiais em cartaz- três thrillers - permitem que se faça uma digressão sobre o heroísmo, e mais que isso, sobre as coordenadas de um gênero que se desdobra em muitos. Em westerns e policiais, em filmes de guerra e de gângsteres, em aventuras no passado e no futuro, a norma básica do cinema de ação é mostrar como os homens reagem ao perigo, como agem sob pressão. É o que une (distingue?) Parker, de Taylor Hackford; Linha de Ação, de Allen Hughes: e A Fuga, de Stefan Ruzowitzky. O homem comum encolhe-se, pede ajuda. O herói, eventualmente, pede ajuda, mas a despeito de recebê-la ou não, age. Bertolt Brecht lamentava o povo que precisa de heróis. Faria melhor lamentando os que não são heróis, mas entronizados como tais, atendendo, sabe-se lá, a quais necessidades espúrias.

Sem delongas, o Arnold Schwarzenegger pós-política e o Sylvester Stallone botocado de Os Mercenários (1 e 2) não são páreos para o Jason Statham de Parker. Bruce Willis talvez seja, porque segue duro de matar e filma mais do que qualquer um dos competidores - a adrenalina das cenas de ação deve ter virado sua vitamina (nada secreta) para filmar tanto, quatro ou cinco filmes a cada dois anos. Mas Jason Statham se destaca dos outros porque além de bater e atirar melhor, ele possui uma qualidade rara entre os heróis de ação. As mulheres não cruzam seu caminho apenas para aumentar o perigo (uma noção do velho Howard Hawks). São objetos de sedução e desejo. Bang-bang, kiss-kiss.

Se você pegar a fita métrica para medir o peitoral de Jason Statham vai chegar à conclusão de que só tem equivalente no bumbum de Jennifer Lopez. Com todo respeito - é a ferramenta dela de trabalho, nos filmes, nos vídeos e shows. O encontro do peitoral com o bumbão é uma cortesia do diretor Taylor Hackford, que nem sempre acerta, mas tem obras de prestígio no currículo, como Ray, a cinebiografia de Ray Charles, que valeu a Jamie Foxx o Oscar de melhor ator. Entre um filme de música e outro, Hackford gosta de ver os homens empunharem as armas (Paixões Violentas, Prova de Vida). Mas ele nunca fez um filme como Parker, sem outra ambição que não a de adestrar os músculos (dele e do astro), batendo forte e disparando mais ainda.

Logo na abertura de Parker, Jason Statham integra grupo armado por seu sogro - tudo gente fina - para assaltar um parque de diversões. Veste-se de padre. É um homem controlado, tenta manter todos sob calma na sua área específica. Do outro lado, a coisa escapa ao controle. Os demais criminosos são todos siderados, e sob o comando de um mais louco ainda. O grupo, porém, comete um erro - quando Parker (Statham) não se alinha com ele, resolvem eliminá-lo. Como nenhum herói pode morrer no primeiro terço do filme - exceto a Janet Leigh de Psicose, de Alfred Hitchcock, que era a estrela, mas não a 'heroína' -, Parker sobrevive, pega em armas e vai à forra.

O filme baseia-se numa história de Richard Star, um dos pseudônimos do escritor Donald E. Westlake, a quem é dedicado. Você sabe de quem se trata - entre outras histórias, Stark forneceu a de À Queima-Roupa, um clássico de John Borman nos anos 1960, em que Lee Marvin, traído pela mulher e pelo comparsa pegava em armas como Parker. À Queima-Roupa fez história porque Boorman incorporou inovações de linguagem que o francês Alain Resnais estabelecera em Hiroshima, Meu Amor e Ano Passado em Marienbad. Em 1998, Brian Helgeland fez o remake, O Troco, mas o diretor e roteirista jura que seu filme foi estragado pelo astro/produtor, Mel Gibson. Stark/Westlake não teria desgostado da adaptação de Parker.

Com a ação transferida para Miami, Palm Springs, o herói, travestido de milionário texano - com direito a bota e chapéu de caubói -, liga-se a Jennifer, no papel de uma corretora de imóveis a quem a sorte deixou de sorrir, há tempos. Ela vê no grandão uma possibilidade de sair do buraco, mas ele está totalmente empenhado em caçar seus desafetos, que planejam uma grande operação (e por isso tentaram descartá-lo). Entra em cena um sicário contratado por um chefão do crime - um degrau acima do siderado chefe da quadrilha. A luta de Statham com ele é uma das mais selvagens dos últimos tempos, aproveitando uma lição da série Bourne - passa-se em espaços confinados, uma sala, um banheiro, uma sacada.

Até certo ponto, Parker é um filme de linha, apenas mais bem produzido que outros. Mas ele possui certos toques que nuançam a narrativa, como as tentativas de avanço de Jennifer e as brecadas de Statham, que o espectador está acostumado a ver mais ousado em outros filmes, até na cama. O diretor Hackford é casado (desde 1997) com Helen Mirren. Ninguém se casa impunemente com uma atriz que virou sinônimo de excelência. Ele aprendeu com ela a dirigir atrizes, com certeza. Toda a arquitetura de Parker parece convergir para o momento em que Jennifer conhece a mulher amada do herói e admite para ele - "Nunca tive chance, não?". Não é uma fala que você espere da gostosana Jennifer. Pode ser pouco, mas faz alguma diferença.

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