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Explosão surrealista

Inspirada em tela desaparecida de Dalí, ‘La Verità’ chega a São Paulo

Maria Eugênia de Menezes - RIO, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2013 | 19h54

Desaparecida havia anos, uma imensa tela de Salvador Dalí ressurge. O que fazer com ela? Surpreendentemente, seu destino não foi um museu ou a sala de um colecionador particular. Mas o palco.

Em La Verità– espetáculo que chega nesta quarta, 7/8, a São Paulo depois de percorrer quatro capitais brasileiras –, o ponto de partida é um painel criado pelo artista espanhol nos 1940. Foi de posse da pintura – e tomado pelos caminhos que ela sugeria – que o ítalo-suíço Daniele Finzi Pasca concebeu a montagem.

O diretor conquistou fama internacional por suas criações grandiosas. No Brasil, pôde ser visto recentemente em Donka – Uma Carta a Chekhov, montagem de 2010, e Corteo – obra do Cirque du Soleil que levava sua assinatura. Agora, está no Canadá, criando o espetáculo de abertura da próxima Olimpíada de Inverno.

O encenador mantém seus traços característicos em La Verità: concebe algo entre o circo e o teatro, com números de clowns e demonstrações acrobáticas. “A peça é como um caleidoscópio de pequenas narrativas, fragmentos que se inspiram todos nessa tela”, comenta ele.

Com cores esmaecidas, o painel traz as figuras dos amantes Tristão e Isolda. Foi criado para servir de cenário a Tristan Fou: balé visto em Nova York em 1944 e que se autodenominava como uma dança tragicômica.

O caminho trilhado pela cia de Pasca se aproxima dessa ambiguidade original. Sua obra cênica está a lidar com um constante jogo de contrastes. Persiste oscilando entre o grotesco e o lírico. Permite que a tela de Dalí tenha espaço próprio na criação, mas faz isso sem adotar uma postura reverente.

Não existe uma organização linear para a narrativa da montagem. “E isso se encaixa perfeitamente à própria lógica do surrealismo”, ressalva o diretor. “O sonho, que é umas das formas mais poderosas de nos comunicarmos com nós mesmos, também não é linear.” Sua intenção, admite, é construir um espetáculo que provoque mais pela emoção do que pela sofisticação intelectual.

E, talvez por isso, os acrobatas tenham recebido lugar de tanto destaque na produção. Também segue por essa vereda a criação de imagens impactantes. Luzes, música e movimentos virtuosísticos foram cuidadosamente amalgamados de forma a criar forte efeito em quem está na plateia.

Se as peripécias aéreas servem para romper com a ideia de real, as incursões dos palhaços desempenham função oposta: sair da zona do sublime e aproximar o público do comezinho. “O jogo que ele cria com os clowns é justamente uma maneira de dessacralizar essa relação com a tela de Dalí”, considera a atriz Beatriz Sayad, única brasileira a compor o elenco formado por artistas do Canadá, Itália, Suíça, Argentina, Austrália, Espanha, Paraguai e França.

O título escolhido – La Verità – surge como pista relevante para quem quiser desvendar parte do mistério da criação. Verdade e mentira, aspectos importantes na trajetória de Finzi Pasca, surgem ainda mais embaralhados. “Se tomarmos a física contemporânea, percebemos que tudo aquilo que tomamos como verdadeiro já pode ser discutido de outra forma”, diz ele. “No teatro, um ator não pode morrer em cena. Porque a morte verdadeira é outra. A gente representa e a representação é, às vezes, mais forte do que a verdade propriamente dita.”

Beatriz Sayad é única brasileira

Única brasileira em La Verità, Beatriz Sayad é antiga parceira de Daniele Finzi Pasca. Durante oito anos esteve envolvida com o Teatro Sunil – outro projeto do diretor. Em 2010, participou da turnê mundial de Donka. No Brasil, atuou com Os Doutores da Alegria e dirigiu o espetáculo Estamira – Beira do Mundo. A turnê com La Verità deve se estender por cerca de dois anos. O grupo começou as apresentações em janeiro, no Canadá. Depois de passar pela América do Sul, partirá para a Europa.

Preste Atenção

1. No painel. A obra, que esteve desaparecida por anos, foi restaurada e pode ser observada diversas vezes ao longo do espetáculo. As figuras, que representam Tristão e Isolda, são sexualmente ambíguas

2. Nos atores. Mesmo procedentes de vários países, eles falam português durante a apresentação

3. Nas imagens. O diretor evoca a obra de Dalí trazendo elementos como cabeças de rinocerontes

 

LA VERITÀ

Teatro Bradesco. Rua Turiassu, 2.100, Shopping Bourbon. 5ª a dom., 21 h. R$ 30/ R$ 200. Até 25/8. www.ingressorapido.com.br

A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PRODUÇÃO.

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