Explicações para o talento inexplicável de Cacilda Becker

Estudiosa do teatro, Maria Thereza Vargas recupera trajetória da atriz, considerada a maior de sua época

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h20

Dois fotógrafos acompanharam a evolução profissional de Cacilda Becker. Nos anos 1930, Boris Kauffmann capturou sua adolescência em Santos e a paixão pela dança. Já como atriz profissional, quem lhe devotou olhar atento foi Fredi Kleemann: documentou seu esplendor no TBC e, posteriormente, na companhia que levava seu nome.

Cacilda Becker: Uma Mulher de Muita Importância reúne esses registros preciosos. Talvez os últimos vestígios materiais do alardeado talento de Cacilda. Ainda assim, é preciso dizer, as imagens são incapazes de dar conta do alcance de sua presença. No teatro, fotografias são tentativas de eternizar aquilo que é, por natureza, fugidio. Era algo de inefável o que tornava Cacilda Becker única, fulgurante, "a maior figura que o teatro produziu no Brasil", segundo as palavras do historiador Francisco Iglesias. Como apreender o que acontecia quando ela subia ao palco? A pesquisadora se impõe tal tarefa. Só que sem delinear o retrato de uma artista irretocável. Antes, deixa entrever a potência dessas fragilidades.

Na juventude, Cacilda gozava dos elogios que recebia. Com o tempo, porém, sua parcela de vaidade decresceu e cedendo lugar à autocrítica. Em 1958, Quando encenou Longa Jornada Noite Adentro, Cacilda fazia reparos à própria atuação. De nada serviram as louvações que Décio de Almeida Prado e Paulo Francis lhe teceram em suas críticas. Ela ainda não havia alcançado inteiramente Mary Tirone, faltavam-lhe meios de dar corpo e gestos à personagem de Eugene O'Neill. "Eu era extremamente jovem como atriz e como mulher para fazer o papel", disse em entrevista. Também não deixava de estar sempre atenta às suas limitações técnicas. A atriz dizia ter poucos recursos vocais, constatava que algumas produções custavam-lhe imenso esforço físico.

Verdade que os anos no Teatro Brasileiro de Comédia lhe deram os instrumentos de que necessitava. "O TBC, em minha carreira, significa realmente, e com sinceridade , a Escola", declarou. Mais adiante, ao fundar a Companhia Cacilda Becker, aperfeiçoou estilo e repertório. "Ela amadureceu mesmo. Artisticamente e moralmente", acredita a pesquisadora. "No começo, estava preocupada consigo mesma. Depois, com o tempo, foi ficando mais calma, descobriu que era uma líder. Tomou para si uma preocupação com o coletivo." Nos anos 1960, lutaria pela classe teatral, enfrentaria a censura e viria a assumir a presidência da Comissão Estadual de Teatro, fazendo a ponte entre governo e artistas.

Só que nada disso explica completamente Cacilda. Fica a pergunta insistindo: O que havia ali de tão extraordinário? "Cacilda vivia intensamente o dia de hoje", conta Maria Thereza. "Como se tudo fosse acabar, como se não houvesse mais o dia seguinte. Era uma chama viva." A história pessoal da atriz também fornece chaves ao enigma. "Cacilda dizia: 'O meu entusiasmo nasce de uma desilusão. Por isso, é muito forte'", relata a estudiosa. "Era um sofrimento constante, um espírito sempre atormentado pela culpa. Culpa de quê? Era um estado de alma."

No livro, Maria Thereza contempla de relance aspectos biográficos. Apenas cita o fracasso do primeiro casamento e sua briga judicial pela guarda do filho. Sobre o segundo casamento, com o ator Walmor Chagas, o tratamento não é diferente. A obra não explora os interstícios da relação conjugal, mas frisa um aspecto essencial desse encontro: revela o quanto ele foi benéfico para a arte da intérprete. "Walmor era mais novo, mas percebia o valor da geração de Cacilda. De alguma maneira, é como se ele tivesse misturado as duas épocas, ficou com os dois sabores", conta a escritora. Outro dado: o lado racional do marido também teria servido para temperar sua sensibilidade exacerbada.

Apenas temperar. Em seu último espetáculo, Esperando Godot, ela voltava a dilacerar-se à procura da personagem. Talvez a mais difícil dos seus 28 anos de carreira. Estava insegura, a temer um futuro e um teatro em que ela não coubesse mais. A morte trágica, depois de sofrer um aneurisma cerebral em cena, em 1969, só serviu para sublinhar o traço melancólico de sua personalidade.

Mas não é disso que fala Cacilda em sua última entrevista, incluída no volume. Nas respostas à jornalista Daisy Fonseca, ela ainda fazia planos. Não adivinhava o fim prematuro. Queria viver. "Trabalhar, educar meus filhos, viajar... Eu preciso ver coisas, ver o mundo. Ver gente. Ver tudo!"

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