Explicação para futuro

Será que historiadores de 2050 perguntarão: por que os cidadãos do Rio e SP não fugiram?

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 02h00

Passada a tempestade da barbárie nazista, o mundo tinha uma questão adicional. Por que a comunidade judaico-alemã não saiu correndo quando foram anunciados os resultados das eleições de 1932? Em janeiro de 1933, o cabo austríaco tomou posse. Por que não houve um êxodo? A resposta é complexa e desperta reflexões.

Olhamos para o holocausto com uma visão sedimentada pelos fatos conhecidos. A percepção de tudo o que representava o nazismo só foi (se é que foi!) plenamente conhecida depois. As leis de exclusão racial são de 1935. A decisão de eliminar fisicamente todos os judeus sob controle do Terceiro Reich é da fase final da Segunda Guerra. Mesmo em 1945, diante de pilhas de evidências, muita gente custava a acreditar que aquilo ocorrera.

O risco existia, como sempre existiu para a comunidade judaica, oprimida secularmente por principelhos nos séculos anteriores e expulsa daqui e dali. Tanto o antijudaísmo como o antissemitismo eram tradicionais e endêmicos. Hitler pareceu mais uma onda da retórica causticante que nunca deixou de se abater sobre os judeus.

Havia judeus em cidades romanizadas antes da chegada dos bárbaros germanos. Imagine que você pertença a uma família que está há dois mil anos em Colônia, Alemanha, e, de repente, ouve falar que um estrangeiro austríaco venceu as eleições. Você se sente mais alemão do que ele e falando melhor a língua de Goethe do que o atrapalhado Adolf. Não é tão fácil conceber de forma rápida que aquele homem de fora do seu mundo seja o motivo para você deixar seu lar.

Questão fundamental: fugir para onde? O mundo de 1933 não apresentava muitas opções. Nos anos seguintes, as portas foram sendo cada vez mais fechadas. A onda de acolhimento das massas europeias, inclusive judaicas, tinha passado. Vejam dois exemplos vivos. Getúlio Vargas levantou crescentes barreiras à chegada de imigrantes judeus. Durante a guerra, a figura de heróis solitários, como o diplomata Luiz Martins de Souza Dantas concedendo vistos clandestinos, foi uma exceção. 

Há um episódio particularmente doloroso: o transatlântico alemão Saint Louis não conseguiu descer em Cuba, na Flórida ou no Canadá. Era 1939 e a guerra estava prestes a explodir. O navio retornou para a Europa e alguns que chegaram a ver o sol do Caribe com esperança terminariam seus dias em Auschwitz. 

O mito de um judeu que viu o horror da morte com passividade foi derrubado por muitas obras (como o livro de Benjamin Ginsberg: Judeus Contra Hitler). Resistências extraordinárias como a do Gueto de Varsóvia existiram sempre. Mas quero insistir: em 1933 as coisas não eram tão claras para todas as pessoas. A objetividade pode aumentar com o passar dos anos. Que recepção teriam dado os indígenas da futura Bahia aos argonautas lusitanos, se supusessem tudo o que se desenrolaria nos séculos seguintes? Como imaginar que a semana santa de 1500 marcaria o início de um imenso genocídio? 

Hitler era mais conhecido da comunidade judaica do que Cabral da indígena. O julgamento feito depois sobre o passado sempre apresenta o risco do anacronismo. 

Já me surpreendi em devaneios de futurologia, algo interditado ao bom historiador. A situação no Rio de Janeiro é muito grave. Um médico amigo meu segredou-me que, pela primeira vez na vida, viveu tiroteio na porta do seu consultório em área nobre carioca. Bem, e se a situação do Rio e de São Paulo piorar de tal forma que signifique o colapso absoluto de tudo? Será que historiadores de 2050 perguntarão: por que os cidadãos do Rio e São Paulo não fugiram para o campo, criando um novo Feudalismo, aliás, nascido exatamente em um ambiente de invasões e insegurança urbana? De certa forma, já estamos nos encastelando faz tempo em condomínios ou atrás de cercas e muros cada vez mais altos. Na Idade Média, a cidade era murada, pois o inimigo estava fora dela. Hoje, se o muro está em nossas casas, onde está o inimigo? E seguimos dando soluções privadas para problemas públicos.

Nossa permanência nas cidades brasileiras pode ser explicada da mesma forma pela qual pensamos os judeu-alemães. Consideramos a cidade nossa e não dos bandidos. Nem todos temos para onde ir. Quem é o inimigo? Quem é o Hitler de hoje? O problema atual não emana de um líder de tráfico ou de um gabinete político apenas. A capilaridade do problema nos deixa perplexos: contra quem devemos nos defender?

De muitas formas, há uma vitória atual do otimismo. Ao permanecer morando onde estou, considero, no fundo, que a situação não irá piorar. Algo surgirá para resolver o caos. Imagino, de forma muito positiva, que, depois dos males alados da caixa de Pandora, restará a esperança. 

Prometeu criou os homens e entendia as coisas antes, como diz a etimologia do seu nome. Seu irmão Epimeteu compreendia as coisas depois e foi ele que acolheu Pandora e a caixa com todos os males. Continuar morando no Rio ou em São Paulo (ou Fortaleza ou Recife) é uma aposta profunda na esperança. O que dirão os homens do futuro sobre nós? Que geração notável era aquela! Ou: que bando camicase que não percebeu o que estava ocorrendo! Nossa bravura esperançosa ou nossa passividade marcarão nossa biografia. Boa semana para a tribo de Prometeu e a de Epimeteu. 

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