Jotabê Medeiros/AE
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Expert apresenta nova hipótese para santo barroco encontrado no Chile

Escultura com traços semelhantes à obra de Aleijadinho pode ter sido formada por fusão de peças

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2012 | 03h09

A imagem de um santo barroco (localizada pelo Estado em Santiago do Chile) que guarda semelhanças com esculturas do Aleijadinho tem causado amplo debate entre especialistas em arte de todo o País. O assunto foi destaque no Caderno 2 de domingo.

Da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) à Universidade Estadual Paulista (Unesp, presente em 23 cidades do Estado com 33 unidades), a discussão foi acalorada. Esta semana, em um podcast da Unesp, o professor Percival Tirapelli (artista plástico e pesquisador de arte sacra da Unesp) manifestou incredulidade na hipótese de que seja um Aleijadinho autêntico. Sua tese é que o santo de Santiago não poderia ter ido parar lá por obra dos jesuítas expulsos de Minas Gerais pelo Marquês de Pombal, em 1759. "O marquês ordenou que fossem expulsos todos ao mesmo tempo e que fossem diretamente para Roma. É quase impossível (que tenham ido) para o Reino de Castela ou o vice-reinado do Peru", afirmou Tirapelli.

O especialista acha "uma ideia muito mirabolante" atribuir a peça ao Aleijadinho, dado que, em sua análise, o artista barroco brasileiro "é formado para reproduzir modelos", daí os traços coincidentes com obras de arte espanholas. Outros especialistas discordaram veementemente dessa análise, visto que o Aleijadinho se destacou justamente por fugir (com maestria) da imperiosidade de reprodução de modelos. Isso o tornou, segundo o ex-curador do Louvre Germain Bazin, num artista do porte de Michelangelo, pela consistência e unidade de sua obra.

Reexaminando fotos da obra, o expert Marcelo Coimbra (que realizou, com Márcio Jardim e Herbert Sardinha Pinto, a catalogação geral da obra do artista) fez um observação nova, à luz do exame de semelhanças com outras peças de sua lavra. Como a maior dúvida é quanto às características do corpo, Coimbra diz que "há uma possibilidade" de que a escultura seja resultado da fusão de peças diferentes.

Coimbra observou que, na foto, nota-se um fio como um corte longitudinal no pescoço da estátua, o que poderia indicar que a cabeça do santo é uma escultura distinta do resto do corpo (como uma imagem de roca, articulada, feita para ser vestida, da qual são esculpidos apenas cabeça, mãos e pés). Isso só poderia ser demonstrado com um exame mais acurado, que Coimbra pretende fazer in loco em duas ou três semanas.

No Catálogo Geral da obra do Aleijadinho, diversas obras de roca demonstram ainda mais semelhança com a peça chilena - que pertence ao pequeno Museo la Merced e cuja origem é atribuída a um santeiro anônimo de Lima, Peru, sendo uma representação de San Pedro Pascual.

Duas imagens de roca do catálogo - São Raimundo Nonato e São Pedro Nolasco - mostram a atuação do Aleijadinho em uma fase intermediária entre as 5 fases identificadas pelo historiador Márcio Jardim. Outra obra do tipo, entre as cerca de 400 catalogadas, é a imagem de São Francisco de Paula de pedra-sabão, cuja barba e expressão guardam similaridade com a de San Pedro Pascual, do Chile.

Há vários casos desses na obra do Aleijadinho, como a Santa Helena de cedro atribuída ao mestre pelo Instituto do Patrimônio Histórico em 1951 (propriedade da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Ouro Preto): somente a cabeça é reconhecida como do Aleijadinho. No final do ano passado, foi descoberta em Cuzco, no Peru, um busto de 20 cm cuja cabeça já foi atribuída ao Aleijadinho pelos experts.

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