Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

'Experimento uma sensação de liberdade', diz Denise Fraga

Atriz volta a ser dirigida por Fauzi Arap no espetáculo 'Chorinho', que estreia em São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2012 | 09h43

A atriz Denise Fraga falou ao Estado sobre novo espetáculo 'Chorinho', que estreia em São Paulo nesta terça-feira, 16.

Por que esse texto a atraiu?

Procurei o Fauzi Arap porque queria uma peça móvel, autônoma, para viajar. Tenho uma certa resistência aos monólogos porque, no teatro, gosto do jogo e suas surpresas. Queria falar sobre o trato humano, a gentileza, a dificuldade do convívio e da comunicação humana de forma engraçada e poética. Ele sugeriu Chorinho. Li a peça e vi que realmente tanto fazia ser um homem ou uma mulher no papel. É um papel maravilhoso em uma peça que diz tudo o que eu queria.

Então, não interessa o sexo do personagem?

Não. Na verdade, a mudança acentuou a relação de espelho que o Fauzi propõe na peça.

Qual é a melhor característica do texto?

A sabedoria do Fauzi está em cada linha. Diz coisas que gostaríamos de falar. Corre no fio entre comédia e drama - meu terreno favorito. Nas apresentações que fizemos, fiquei impressionada com o poder da palavra no palco. Em Curitiba, fizemos no Teatro Guaíra lotado e, quando entrei em cena, tremi. Eu me senti nua. A peça resume-se a um banco de praça e duas atrizes. Um embate verbal. O poder do verbo. Unicamente. Pensei no Fauzi: "Não deixe escapar o tônus da ideia. Faça a peça, não dê a fala, projete o conteúdo". No fim, há uma inversão fantástica, emocionante, que nos une.

Como tem sido essa peculiar forma de dirigir do Fauzi?

Como ele mesmo diz, agora é amador. Só faz o que ama. É recluso, faz poucos projetos. Topou nos dirigir, com Marcos Loureiro como fiel escudeiro. Fauzi nos tira do prumo, nos move, nos sacode, nos chama à presença em cena. Foi ator, ama o ator e acredita na cena a partir do jogo vivo, do contracenar. Não aguenta uma cena naturalista, tampouco firulas teatrais. Não deixa o teatro ser banal.

A praça permite o encontro de estranhos que logo percebem que são muito semelhantes.

Sim. Pela praça, Fauzi fala da solidão, da dificuldade de comunicação humana, da hipocrisia social, do preconceito. Tudo muito simples, poético, bem-humorado, até superficial. Sou frequentadora de uma praça da cidade. Desde que comecei a ensaiar, presto mais atenção nas pessoas, nas solidões. A peça ampliou minha visão sobre a rede que formamos, a forma como a humanidade está conectada, apesar da aparente desconexão.

Claudia Mello diz sair transformada da apresentação. E você?

Acredito que esse é um dos meus trabalhos mais importantes. Sempre olhei as pessoas que moram na rua com um certo respeito, uma certa inveja de sua liberdade. Sei que estão em estado de miséria, passam frio, é uma vida terrível. Mas, simbolicamente, há algo transgressor em quem não aguentou o páreo, as leis, as hipocrisias. Fauzi criou uma mendiga que diz estar na rua por opção, não deve nada a ninguém. Ela tira algo de mim que há muito queria colocar em cena. Experimento com ela uma verdadeira sensação de liberdade.

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