Experiência próxima da perfeição

Performance exuberante, porém sem exageros, do maestro, e sua atenção à inteligência dos intérpretes foram tratadas no caderno

Salvatore Ruperti, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2011 | 03h08

Um dos mais autorizados críticos francêses, depois de dois concertos da Philarmonic Symphony Orquestra de Nova York, dirigida por Toscanini no Opera de Paris, em 1930, dizia: "Que é que Toscanini possui mais do que os outros, que, contudo, são dignos de fervorosa admiração? Em que êle os supera? De onde tira êle êste poder verdadeiramente solar? Da latinidade, talvez, que há nele como no mais primoroso dos eleitos?"

E ainda: "Deixei o Opéra comovido por esta certeza: de ter conhecido a perfeição. Direi bem simplesmente que nunca tinha sentido que a Heróica fôsse magnificência, paixão e profundidade a um tempo, poesia e destino. Beethoven sentido, comprometido, interpretado por Toscanini é, em verdade, algo mais que Beethoven: é o gênio interpretado pelo gênio. Tínhamos a lembrança de alguma outra interpretação que fôra chamada perfeita; mas ontem havia algo de nôvo: a força, não eloquente, mas lírica que emana, comunicativa e irresistível, dêste diretor que não gesticula, que não tem pose e que nunca, mesmo quando parece que esteja possuído de um deus, tem atitudes monumentais".

Era assim mesmo; quando já na Europa, nos fins do século passado, aparecera um astro da regência chamado Artur Nikisc, que á grande habilidade artística associava a admiravel faculdade de sugestionar o publico com os seus gestos pitorescos e, na realidade, bastante expressivos, Toscanini se manteve sempre nos limites da mais alta dignidade e da serenidade absoluta. Ao redor dêle a arte de dirigir tornava-se dia a dia uma coisa diferente daquele ritual cheio de responsabilidade dos regentes nossos predecessores: começou-se a ir aos concertos para olhar os gestos do diretor, para poder gozar o espetáculo visivo. E equívoco, uma vez iniciado, não parou mais, com que desvantagem para a Arte, é bem fácil imaginar. (...)

Dirigir - dizia Herman Scherchen - significa estabelecer um contato espiritual entre uma pluridade de homens; quanto mais sensível, pura e concentrada fôr a atividade que tende a tal fim, tanto mais inteligível e eloquente será o seu resultado e com maior prazer e mais profunda Intensidade emotiva os musicistas empreenderão o trabalho de reproduzir em ritmos e em sons a essência Inefável da obra musical."

Em primeiro lugar Toscanini diretor interessava particular mente pela sua sobriedade: um aceno muito leve aos violinos ou ás trompas, acompanhado de um olhar direto e cortante e ficava tudo nisso. Não se tratava, pois, de gestos exagerados, nervosos, impetuosos: extrema simplicidade, medida calculadíssima, quase que, no momento da execução, tudo estivesse predisposto e verificado. (...)

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